Postagens

O “espírito” de 1964

Jaldes Meneses Toda história da cultura é também uma história da barbárie. Walter Benjamin   Como abordar o golpe militar de 31 de março (ou primeiro de abril) de 1964, 52 anos passados e neste Brasil em transe assombrado com o retorno truculento dos recalques que pareciam esquecidos na  lata de lixo da história ? Para tanto, requisita adentrar às camadas profundas dos  círculos  de um inferno dantesco.   Em sua bela biografia de Napoleão, publicada logo após o fim da Restauração francesa (a sequência de 15 anos de último retorno da dinastia dos Bourbons, na qual ficou evidente a quimera do projeto conservador de retorno do antigo regime), Stendhal faz uma observação decisiva para quem pretenda escrever a história de seu próprio tempo: o escriba vai se meter em exumar os companheiros de geração, as promessas que se dissiparam e os fracassos que ficaram feito cicatrizes, mas principalmente as viragens. O romancista anota que os homens que foram n...

A violência dos Mansos

J aldes Meneses   Na manhã em que escrevo esta coluna lá fora o Brasil está em transe: está em curso, e é preciso que se denuncie sem meias palavras, uma tentativa de golpe de Estado de escancarado conteúdo bonapartista (Sérgio Moro) e midiático (Rede Globo). O objetivo é atear fogo em Roma. O clima de histeria coletivo é tão áspero que são divulgadas conversas privadas, quando todos nós - quem atira a primeira pedra? - relaxamos as cautelas de linguagem, como se fosse crime de Lesa Pátria. Gostaria de escutar as gravações privadas do juiz Sérgio Moro no comando da Lava Jato. Pouco me importa se circunstancialmente o golpe angarie apoio majoritário, se expressa a voz irracional de ativistas nas ruas ou penas sanguinárias na internet, no fundo da alma movidos pelo ressentimento. Não importa se o golpe tenha o apoio de profissionais liberais de renda elevada, intelectuais liberais (nossos liberais apoiaram todos os golpes da história brasileira, sem exceção) e até pessoas mansa...

O inferno somos nós

Jaldes Meneses “Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homem-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte? (…) Criticar a própria concepção de mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído.”    ANTONIO GRAMSCI, Cadernos do Cárcere 11 (1932-1933 ) Mistura nova de Babel de afetos de amizade e tribuna política, as redes sociais, exatamente por isso, podem ter, entre mil e uma utilidades, a serventia de funcionar como uma espécie de rico laboratório a quem se dispor a realizar um estudo sério do discurso como crítica à ideologia. Existe atualmente uma corrente da crítica social neomarxista bastante festejada do conceito de ideologia na qual, pelo lado da esquerda acadêmica, o superstar absoluto é o bufão esloveno Slavoj Zizek. No caso específico de Zizek, a salada servida mistura mais Hegel e Laca...

Marx: as formas da política

Jaldes Meneses O antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss, um intelectual de apurado senso de observação, costumava dizer que quando lhe faltava a inspiração de escrever, ele punha-se a ler “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, a obra-prima política e literária de Karl Marx. Trata-se, sem dúvida, de uma obra excepcional, um clássico insuperável de teoria política de extraordinária força imaginativa. No texto, Marx descreve, em pena nervosa no galope dos acontecimentos, o processo político na França em uma época aguda de crise política.   O galope dos acontecimentos é condensado no intervalo entre a revolução de 1848 - quando o povo de Paris derruba, em barricadas nas ruas, o reinado burguês de Luis Felipe, de origem na aristocrática dinastia de Orleans e que se transforma, no exercício do poder de Estado, em um títere da fração financista da burguesia -, até o golpe de Estado de 1851, perpetrado por um aventureiro de pouca intimidade com a Nação, que falava francês com ...

O destino bate à porta

Jaldes Meneses No dia em que a presidente eleita Dilma Rousseff tomou posse no primeiro mandato (01/01/11), sucedendo Lula na condição de ungida do Rei consagrada pela vontade popular, escrevi para a revista Nordeste um artigo de previsão chamado “A transição suave”, no qual sugeria a possibilidade de haver dois destinos de Estado à nova presidente. Parafraseando Maquiavel, se a Deusa da Fortuna - depois do sofrimento da tortura na ditadura - não faltou ao encontro com Dilma, a verdadeira prova dos nove seria o desafio de virtu na direção de um Estado. Até brinquei, o destino de Dilma seria dobrar a aposta do Lulismo (André Singer exagerava em otimismo, prevendo um novo “alinhamento político” que pudesse resultar num New Deal brasileiro deslocado no tempo e no espaço) ou se transformar numa espécie, certamente mais simpática e charmosa, de “General Dutra de saias”. Fui o primeiro a prever, em janeiro do ano passado, que 2015 seriam um daqueles anos que nunca terminam. Não quero...

Dinheiro Falso

(Crítica do Filme "A Grande Aposta", dirigido por Adam Mckay e baseado no romance histórico de Michael Lewis) Jaldes Meneses "A grande aposta”, título do filme em português do filme concorrente ao Oscar diz pouco, mas The big short, o título original, diz tudo, remete ao nome de uma operação facínora e de alto risco, rotineira no mercado financeiro globalizado. Trata-se do seguinte. Baseados na percepção - correta - de que o mercado vive um momento irracional de escalada de especulação desenfreada em torno da cotação de um ativo (no caso da crise de 2008, as hipotecas imobiliárias do mercado americano, da mesma maneira que no século XVI foram as tulipas do mercado holandês), um grupo de corretores, no filme um sem relação com outro, resolvem bancar uma aposta na contracorrente. Ou seja, os espertos consignam nas contas dos investidores das respectivas corretoras que administram a compra dos títulos imobiliários na alta, mas não são bobos de comprá-las. A conta ...

Os inimputáveis

Jaldes Meneses Desde os idos tempos da crise do “mensalão", e agora no “petrolão", duas narrativas antagônicas disputam espaço na opinião púbica brasileira, cada uma das quais visando prevalecer, na cabeça de Bart Simpson, como a versão totalizante de justaposição dos fatos. A primeira versão, predominante, que começou a ser difundida na cobertura por jornalistas ligados ao PSDB, e pode-se dizer, até hoje, majoritária, afirma que ambos os casos de corrupção (o mensalão e o petrolão) significaram um salto de qualidade. Antes, diz-se, a corrupção era individual e não tinha um comando centralizado no vértice do aparelho de Estado, o que é uma evidente mentira. Nestes dois casos recentes de corrupção, afirma-se, em vez de individual, o comando localiza-se no próprio centro e se irradia para as margens. Pretende beneficiar um projeto de poder, nesta versão, autoritária, de hegemonia de um determinado partido - o PT. Esses esgrimistas das ideias são lobos em pele de corde...