domingo, 18 de março de 2012

1922 e o bloco histórico

Comecei neste domingo a colaborar com uma coluna quinzenal no JORNAL DA PARAÍBA. O artigo de estréia, em 28 linhas, necessariamente sintético, segue abaixo, acrescentado de algumas palavras:

1922 e o bloco histórico

Jaldes Reis de Meneses

Comemoramos em fevereiro os 90 anos da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, e vamos comemorar no dia 25 de março também os 90 anos de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em Niterói. São dois acontecimentos capitais para entender o Brasil no século XX. Poucos sabem quando estão fazendo o alcance histórico de suas atitudes, mas compunha o discurso tanto dos jovens artistas burgueses de São Paulo – Mário e Oswald de Andrade –, como dos intelectuais trabalhadores reunidos em Niterói – Astrogildo Pereira e Cristiano Cordeiro –, a percepção de que alguma nova estava acontecendo.

Naqueles acontecimentos, sem dúvida, estavam sendo plantadas as sementes do Brasil moderno. São acontecimentos aparentemente sem relação direta. Contudo, logo os processos, à maneira de uma combustão química, entrariam em confluência e resultaria no movimento de 1930 (mais uma data), liderado por um senhor de meia idade gaucho, Getúlio Vargas, de origem progressista positivista e alinhado à oligarquia regional.

Consegui reunir em poucas linhas o fio principal da história do Brasil contemporâneo. Sei que omiti muita coisa, mas disse o mais importante: 1922 foi o ensaio geral e 1930 o primeiro ato. Ao longo dos anos, formei uma interpretação sistemática de nossa história com base nestas duas datas – 1930 e 1985. Estas duas datas formam aquilo que o filósofo italiano Antonio Gramsci chamava de “bloco histórico”, ou seja, uma temporalidade única cujos componentes articulados são cultura, economia e política.

A crise da ditadura e a ascensão da nova república em 1985 significaram bem mais que o fim do regime autoritário. Foi-se junto também o Estado desenvolvimentista e o projeto de modernidade brasileira (de direita e de esquerda). Recordo tudo isso ao finalizar a leitura do livro do jornalista da Folha de S. Paulo Marcos Augusto Gonçalves, “1922 – a semana que não terminou” (Cia das Letras, 2012). O livro é bom, o título leve, literário e mercadológico (uma colagem de “1822” de Laurentino Gomes com “1968 – o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura), mas equivocado: 1922 e 1930 morreram para sempre. Parafraseando o poeta Carlos Drummond de Andrade, maior poeta modernista brasileiro, 1922 é um retrato na parede. Mas como dói.

Nas artes, as vanguardas artísticas se esgotaram esteticamente. Na política, Afonso Arinos de Melo Franco saudou o PCB como o primeiro prenúncio de existência no Brasil de um partido moderno de classes dotado de programa, caso não fosse logo em seguida posto na ilegalidade. Quimeras do tempo que não mais existem no Brasil. Só nos resta encerrar este pequeno artigo com um tom misto de melancólico e irônico – viva Michel Teló, o mais fino biscoito de nossa cultura de massas e genuína mercadoria de exportação.

sábado, 17 de março de 2012

Carlos Nelson Coutinho

Jaldes Reis de Meneses

Ensaísta, tradutor, crítico literário e filósofo político, Carlos Nelson Coutinho (CNC) já fez o seu nome na história do marxismo brasileiro. Junto com Leandro Konder, ainda nos gloriosos anos sessenta, em que todas as subversões foram testadas, foi pioneiro ao introduzir em nosso cenário cultural o marxismo historicista de Antonio Gramsci e a ontologia materialista do ser social de Gyorgy Lukács, numa época em que o nosso cânone marxista – salvo algumas exceções, como Caio Prado Jr. e o embrionário grupo paulista de “marxismo ocidental” da USP (José Arthur Giannotti e Roberto Schwarz como principais figurantes) –, limitava-se a reiterar as formulações políticas e filosóficas do chamado marxismo-leninismo ou marxismo da terceira internacional. No Brasil, parafraseando o Ministro varguista e americanista Osvaldo Aranha, as ideias demoram a passar na alfândega. Pois bem, a posição de CNC pode ser situada precisamente neste entreposto renovador, nada provinciano, porém ao qual não falta a audácia de rever as mesmas ideias as quais se traz de fora com formulações originais, algumas delas inusitadas, cujo resultado final é enriquecê-las, elevá-las a outro patamar de sugestões heurísticas. Através do trabalho de escrutínio das ideias alheias, CNC pensa os outros com a própria cabeça.

Em todos os assuntos nos quais CNC põe a inspeção de sua lupa saem teses originais: já havia sido assim na crítica literária, nos ensaios sobre Lima Barreto e Graciliano Ramos – lidos como autores pertencentes ao fio de uma corrente nacional-popular da literatura brasileira. Importante ressaltar que, seguindo Gramsci nas suas contribuições à temática das relações entre intelectuais (especialmente os intelectuais italianos) e povo no processo das revoluções burguesas, em CNC nacional-popular nada tem a ver com populismo ou nacionalismo étnico, mas com as possibilidades de fundar uma corrente em cultura que consiga criar uma linguagem ao mesmo tempo acessível às massas e d e elevado padrão estético, evitando as barreiras do hermetismo e do cosmopolitismo.

As contribuições de Gramsci a propósito do papel nacional-popular dos intelectuais foram importantes nos movimentos de renovação da vida italiana no pós-guerra, principalmente na consecução do realismo cinematográfico de Vittorio De Sica, Luchino Visconti e Roberto Rosselini. Igualmente, as idéias de CNC foram importantes para as realizações artísticas de intelectuais próximos ao PCB nos anos 1960, sendo mesmo uma chave crítica para a interpretação do teatro de Dias Gomes, Guarnieri, Vianinha e Paulo Pontes; o cinema de Leon Hirszman; a poesia social da segunda fase de Ferreira Gullar; e o movimento de retorno do samba de morro na casa noturna Zicartola, de onde saiu Paulinho da Viola e retornaram às lides artísticas Cartola e Nelson Cavaquinho.

Todavia, mais além do nacional-popular, a mais brilhante contribuição de CNC no terreno da crítica literária reside na audaciosa démarche de ler Proust e Kafka – autores modernos e inovadores formais e existenciais da literatura –, através de uma atualização e renovação do método do realismo crítico maduro de Gyorgy Lukács, filósofo marxista cultor de uma bem sucedida estética oitocentista, extemporânea em relação à voga das vanguardas artísticas no século XX. Bem pensado, tratava-se de um passo que Lukács ensaiava no desenlace de sua obra, conforme pode ser lido nas cartas de sua correspondência ao próprio CNC e Leandro Konder. Rigorosamente, pode-se até afirmar que na área das artes plásticas, Lukács já havia dado ele mesmo este passo à frente. Isto fica evidente em algumas diferenças estratégicas de avaliação do filósofo húngaro com o seu colaborador em temas estéticos, o russo Mikhail Lifshitz. Enquanto Lukács tinha uma apreciação positiva da pintura moderna de Cézanne e Van Gogh, em contraponto, o academicismo de Lifshitz desvalorizava a contribuição moderna e se mantinha dogmaticamente atado à época da renascença como o apogeu da pintura. Desta maneira, CNC operou na crítica literária, com êxito, uma ampliação do escopo do realismo crítico lukasciano.

Dividido entre a crítica literária e os estudos estéticos, logo CNC transitou para a crítica das ciências sociais. Através do manuseio de uma lupa de fabricação lukasciana, este velho desafeto das ciências sociais acadêmicas e burguesas, empreendeu a uma crítica devastadora da voga estruturalista em plenos anos de chumbo do regime militar brasileiro, segundo a qual o estruturalismo compunha nas ciências sociais o campo teórico de uma “razão miserável”, tecnicista e manipulatória, revezando de tempos em tempos, por paradoxo dialético, com o outro lado da mesma moeda miserável, o pensamento filosófico irracionalista. O pano de fundo sobre a qual se desenrolava o revezamento da crise da razão nas ciências sociais era a própria crise da racionalidade capitalista, em tempos de apogeu tendente à voga manipulatória e otimista do conhecimento (não por acaso o Brasil vivia o auge de um “milagre” econômico) e depois, quando sobrevém a queda dos índices econômicos, se estabelece impávido, no plano da cultura, o pessimismo cinzento da denegação irracionalista. No caso brasileiro dos anos de chumbo, nem precisou de revezamento entre apogeu e crise: a repressão da ditadura fez-nos conviver ao mesmo tempo com otimismo tecnicista e denegação irracionalista. Com efeito, nos anos chumbo brasileiro, conviveu-se no mesmo cenário cinza de mal-estar tanto com a explosão capitalista das cotações da bolsa de valores, e o séquito acrítico de novos ricos e tecnocratas, como com a voga do desespero e do desbunde, da parte de largas parcelas da juventude emergente.

É difícil negar que a crítica ao estruturalismo empreendida por CNC se mostrou problemática. Menos por causa da analogia, de inspiração lukasciana, entre crise do capitalismo e crise da razão, ponto alto da tese, e mais na parte de leitura sistemática. Conforme o próprio CNC reconheceu depois, a leitura de autores, naquela época ainda em pleno processo de evolução intelectual, como Michael Foucault, Louis Althusser e Roland Barthes, se mostrou demasiado unilateral. Na evolução ulterior de suas obras, estes três autores seguiram veredas discrepantes do uso de uma razão manipulatória e tecnicista. Por isso, a parte sistemática de O estruturalismo e a miséria da razão, no essencial, se desatualizou. Neste ínterim, talvez tenha faltado a CNC o uso daquilo que ele mesmo chama de “critica ontológica”, ou seja, submeter os conceitos e as descobertas destes autores ao crivo de uma abordagem totalizante e historicizada.

Como o próprio CNC já depôs em entrevista, conquanto ele tenha sido o tradutor de Gramsci na edição pioneira do primeiro livro temático do comunista italiano lançado no Brasil em 1966 (A concepção dialética da história), parece-nos que até certo tempo, especialmente em suas incursões de juventude na crítica literária e na filosofia, havia um incômodo traço de sectarismo no trato dos temas da cultura e, por extensão, da política. Pode-se atribuir este traço pela preponderância da influência de Lukács em vez de Gramsci, embora ambas já se fizessem presentes. Afirma o próprio autor, “(...) mudei a minha concepção de política cultural. Fui muito influenciado por um texto de Lukács que se chamava “Franz Kakfa ou Thomas Mann?”, o falso dilema quando se pode ser pluralista e inclusivo sem abrir mão do rigor. Ou/ou. Na verdade, foi preciso a passagem pelo exílio italiano para que Gramsci e, portanto, neste caso, a dimensão política do pensamento – até então subjacente na crítica literária e na filosofia – assumissem um papel preponderante na obra de CNC.

No exercício de apreciação da teoria política de Gramsci, CNC levou uma habilidade metodológica que já havia desenvolvido na crítica literária e na filosofia. São raros os ensaístas que conseguem êxito em estabelecer uma trama tão bem urdida e costurada entre objeto e análise, de tal maneira que doravante a leitura do objeto não poderá mais ser feita esquecendo a remissão à démarche do ensaísta.

Para ilustrar brevemente a minha afirmação, gostaria de comparar por meio de um exemplo só aparentemente longínquo, contudo de afinidade eletiva. Da mesma maneira que em determinado momento apareceu no mundo das ideias um Charles Baudelaire exclusivo sob a pena criativa de Walter Benjamin, Baudelaire e Benjamin entraram de tal modo em simbiose, que em seguida o leitor começou a atribuir ao poeta francês questões e perspectivas que na verdade eram do crítico literário alemão, pode-se dizer por comparação, igualmente, que o Gramsci oferecido pela leitura absolutamente original de CNC também passou a ser muitas vezes confundido, principalmente no Brasil, com o próprio autor italiano. O Gramsci de CNC passou a ser o “nosso” Gramsci. Pode-se ser fiel ao original e descobrir exatamente por motivo desta fidelidade as novas possibilidades do pensamento. Lacan e Althusser chamaram a isto pelo pomposo nome de “leitura sintomal”. Julgo este fato como méritos à força persuasiva do argumento do ensaísta, um dos principais intelectuais brasileiros vivos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Hegemonia em perigo

Jaldes Reis de Meneses

A política é uma arte ingrata: quando mais se pensa que se vive em céu de brigadeiro, de repente aparecem nuvens no ar. Jamais há descanso. Desta maneira, a derrota que o governo Dilma sofreu ontem no senado (o veto a recondução de um diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres), aparentemente uma bobagem, vem acender uma espécie de luz amarela. Menos pelo ramerame da famosa “base governista”, sempre sequiosa de pleitos ad hoc, e mais pela combinação explosiva germinada pelo desenvolvimento da conjuntura.

O PMDB realmente é profissional, ao menos no Senado: inventou de dar uma “traidinha” precisamente no momento da revelação de dois acontecimentos incômodos ao governo: a divulgação do índice de crescimento do PIB de 2011 (2,7%, abaixo de todas as expectativas divulgadas pelo ministério da fazenda ano passado, cujas previsões giravam em torno de 5%) e o crescimento vertiginoso (previsível) de José Serra nas eleições de São Paulo. Acaso adicionarmos a tudo isso acontecimentos aparentemente disparatados como as dificuldades de crescimento da indústria e o pífio resultado do afilhado de Lula, Fernando Haddad, de repente, quem diria, se prenuncia uma situação na qual a até o momento tranqüila hegemonia do governo Dilma e do projeto de poder do PT se vêem ameaçados. Ainda não é nada desesperador, mas é preciso agir.

Em primeiro lugar, talvez Lula, uma indiscutível inteligência política, tenha agido de maneira precipitada em São Paulo. Tudo parecia muito fácil: o principal adversário nacional e estadual, um PSDB dividido, apresentava candidatos novos (Bruno Covas, Andrea Matarazzo e José Aníbal), desprovidos do teste de eleições majoritárias, no mesmo compasso que o prefeito Gilberto Kassab, presidente de um partido recém criado (o PSD) – que não é de direita nem esquerda –, mas louco para participar das benesses da “base governista”, piscava o olho para uma aliança de apoio ao novo príncipe ungido por Lula. Engenharia política perfeita, porém faltou, como diria Garrincha, combinar com o adversário. O PSDB se viu premido a defender a sua última cidadela, e assim o fez: convocou o candidato de maior recall entre seus quadros, mas principalmente de mais experiência na luta ideológica contra o PT, velho desafeto da classe média paulistana. Resultado: conforme os resultados do Datafolha, Serra subiu nove pontos em uma semana, ao passo que Haddad patinava do sofrível desempenho de três por cento. Resultado ganho de véspera dificilmente costuma dar certo, por isso tudo indica que teremos uma verdadeira guerra em São Paulo.

Por outro lado, coincidentemente, enquanto ocorrem as estripulias de São Paulo, o PMDB fez uma pragmática contabilidade de custo-benefício e percebeu que pouco tem sido recompensado na vice-presidência da república, em termos de espaço no governo. Logo tratou de encostar, pelo método da chantagem, a faca no peito dos aliados: ou ampliam-se as verbas e a visibilidade dos ministros, ou se começa a vender dificuldades para aferir facilidades. Nada melhor que a vizinhança de eleições municipais para encetar este tipo de operação fisiológica.

O PT sabe muito bem que tanto as eleições em São Paulo como a “rebeldia” do PMDB são perfeitamente administráveis. Afinal, desde os tempos de FHC, no que Lula e Dilma imitaram, a governabilidade é garantida pela aliança com a calda do atraso brasileiro (respectivamente DEM e PMDB). O que não pode sair de controle é a macro economia. Aí é que reside o perigo da hegemonia.

A conjuntura é de sinais contraditórios, embora em longo prazo a figura de Lula pareça indicar que o Brasil terá nele uma espécie de novo Perón (o que nem Vargas conseguiu), ou seja, um personagem em torno do qual gira todo o espectro político, da direita à esquerda, no curto prazo (e principalmente nas eleições municipais, encabeçadas por São Paulo) tendem a aumentar as contestações ao regime político dominante. O paradoxo do lulismo (e do dilmismo, por extensão), é que precisam sempre crescer e desenvolver o país, uma fuga para frente, como diriam os franceses. Os militares brasileiros se viram em uma situação semelhante em 1974: perderam uma eleição ganha, exatamente quando os palpiteiros não esperavam, no rescaldo do “milagre econômico” e do começo da “crise do petróleo”. De repente, as promessas de Brasil Grande se esfumaram. Não creio que as conjunturas se assemelhem, mas é precisar compreender bem as lições do passado.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Oito de março, o dia triunfal de Fernando Pessoa

Jaldes Reis de Meneses

No começo do ano de 1935, próximo da data de desaparecer precocemente, encantar-se e virar estrela, com apenas um livro publicado (Mensagem), o poeta lusitano Fernando Pessoa escreveu uma carta, famosa a posteriori, ao crítico literário Adolfo Casais Monteiro, na qual relata os acontecimentos do dia 08 de março, numa longínqua tarde de 1914, o “dia triunfal” de sua vida.

O “dia triunfal” deu-se à maneira de um “estalo de Vieira”: em um dia aparentemente banal, de repente a partir de um transe inspirado do poeta, vieram à vida no território livre da linguagem, alojados na pisque, os três heterônimos mais célebres de sua imensa coleção de 72 heterônimos de Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Comemora-se no mundo inteiro e é feriado nacional na Irlanda, o dia 16 de junho – o Bloomsday – alusivo às horas de Odisséia do personagem de James Joyce em Ulisses, Leopold Bloom, pelas ruas de Dublin. Porém, ao contrário de Joyce, até hoje, o “dia triunfal” de Fernando Pessoa passou praticamente incólume no calendário das efemérides. Verdade ou mentira, pouco importa, proponho doravante que, mesmo em concorrência com a estação do carnaval e o dia internacional da mulher, devam-se organizar saraus de leitura dos poemas de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Procuro parceiros para tal empreendimento. Em 2010, por iniciativa do poeta carioca Eucanãa Ferraz, o Brasil começou a comemorar do “Dia D”, em homenagem a Carlos Drummond de Andrade. Pois que se comemore também, a oito de março, o “Dia Triunfal”.

O poeta lusitano trata-se de uma daquelas unanimidades da literatura moderna. Mas ao mesmo tempo é esfinge, cuja obra aberta de imensa riqueza literária pode ser elucidada em várias vertentes. Desde a mais comum, a psicológica, alusiva à capacidade de despersonalização do autor – em seus próprios termos, a capacidade de “outrar-se” – até uma possível, mais rara, leitura sistemática do projeto filosófico escondido nas dobras dos versos, sem esquecer, é claro, o autor moderno ao revés de Camões, no sentido de que o primeiro cantou a glória e o segundo versejou em Mensagem uma espécie de ode antiépica ao desaparecimento dos tempos de glória.

Contudo, ao cantar o fogo-fátuo da melancolia sem fim e o espesso nevoeiro da desencantada realidade lusitana, Fernando Pessoa não estava rigorosamente abrindo sendas. Recordo-me de uma brilhante passagem de Sérgio Buarque em Raízes do Brasil, na qual ele menciona que mesmo em Camões já há um escapismo, visto que o bardo caolho já cantava as glórias do passado recente em vez do presente, mas isso é assunto para outro artigo, a propósito das contradições da épica, pois nem em Camões nem em Fernando Pessoa, ao contrário de Virgílio (poeta oficial romano nos tempos de Octávio Augusto), havia, aliado à glória ou à sua perda, a materialidade de um império que dominava o mundo.

Antes de explorar as vertentes da ode antiépica e da despersonalização psicológica, para mim, na ocasião do “dia triunfal” é mais apropriado falar do indiscutível projeto filosófico de Fernando Pessoa. Fontes ancestrais de um mesmo riacho da linguagem, a principal contribuição da poesia à filosofia é a criação de mitos individuais que logo se tornam patrimônio social compartilhado. Nos termos do poeta e filósofo carioca Antonio Cicero, criar mitos é precisamente um dos índices de modernidade em poesia, pois se trata de uma criação de um indivíduo que ganha o mundo. É claro que, neste caso, as fronteiras entre mito, filosofia e poesia são móveis, vide o exemplo óbvio de Platão: embora fosse filósofo e renegasse o papel do poeta na polis, Platão foi um criador de mitos; portanto, de alguma maneira, ao criar mitos como o de Atlântida, o continente perdido, contraditoriamente estava no campo da poesia.

Fernando Pessoa tinha muita clareza de tudo isso, ele repetia insistentemente que o mais reles poeta de província tinha algo da grandeza de Homero. Há um heterônimo estritamente filosófico em Fernando Pessoa, Antonio Mora, junto com Álvaro de Campos (o poeta moderno) e Ricardo Reis (o poeta clássico), um discípulo fundamental de Alberto Caeiro (o poeta pagão). De alguma maneira, o paganismo espontâneo de Caeiro é repaginado em termos de filosofia de jargão acadêmico por Antonio Mora.

Nesta trama de heterônimos, chega-se à concepção desejada por Fernando Pessoa como uma utopia para mundo. Um mundo, enfim, no qual o ser humano e a poesia se confundem, não há não há divisão, nem trauma, nem tormenta romântica, embora, é claro, é humano, deva haver dor e melancolia. Ouro puro, água límpida de riacho.
O poeta liberto da alienação, um poeta alegre em sua discrição e principalmente fiel ao mundo que viveu e descreve sem preocupações estritas com realismo, embora totalmente imerso na realidade.

Qual o poeta desta linhagem, senão Alberto Caiero, em sua espontaneidade? Mesmo assim, há “fingimento” em Caiero – deslindado por Antonio Mora, por outro lado quando também se trata na verdade de poetizar os fundamentos da filosofia empírica, sob o disfarce de um panteísmo espinosiano. Encerro o presente artigo, como não poderia deixar de ser, com uma mensagem enigmática: Caeiro é espontaneidade, mas também metalinguagem, filosofia da filosofia.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O vôo da coruja

Jaldes Reis de Meneses

Em definitivo não se realizou no século XXI o anseio kantiano de paz perpétua no mundo, uma sociedade civil cosmopolita composta de sujeitos iguais, complementado por uma nova entidade universal soberana (talvez um Estado, mas sem exército permanente, contudo respeitador do novo direito internacional público dos povos). Esta foi uma idéia acalentada há alguns anos passados, entre 1989 e 1991, quando caíram de podre a antiga União Soviética e os estados satélites do leste e do centro da Europa.

No fundo, todas essas promessas eram discursos pronunciados pela boca de falsos profetas, pois o máximo que nos foi oferecido, pseudo cidadãos globais, em vez da generosidade kantiana, foram as teorias do “fim da história” de Francis Fukuyama, que repetiam, com um século e meio de atraso, as teses originais de Hegel, relativas à realização do espírito absoluto na história.

A diferença crucial é que o fim da história de Hegel é um desiderato realista, quem o lê com a devida atenção percebe que ele não mente nem é cínico – sob a capa de consecução no mundo de um “Estado Ético”, se tratava de realizar a verdade de um aparato conduzido por uma burocracia que fazia as vezes de “classe universal” –, ao passo que Fukuyama trata de esconder o aparado de poder do Estado liberal vitorioso e antevia simplesmente um período de paz mundo. O grande valor e a grandeza de Hegel residem no fato de que ele é um autor trágico, a história do mundo é composta de enfretamentos e violências e a felicidade apenas uma página em branco. Fukuyama descoloriu a dimensão trágica de Hegel, e disse que a sociedade do “fim da história” (para ele, a predominância do ethos liberal) seria um sonolento desfilar de banalidades cotidianas.

Imaginem a coruja de minerva de Hegel (a bela metáfora com a qual Hegel imaginou a razão) acordando durante a madrugada de hoje para inspecionar o trabalho que os homens fizeram de dia. Se pousar em seu terreno favorito – a acrópole de Atenas – verá sobranceira na praça ao lado uma guerra entre cidadãos comuns e as forças policiais do próprio Estado que deveria guardar a segurança dos cidadãos.

Pior ainda se a coruja voar um pouco Mediterrâneo acima e der de cara com a Síria – antiga posse do Império Romano – consumida em uma guerra civil sem guarida a lei de nenhuma espécie, uma guerra de todos contra todos que não respeita a integridade física nem de jornalistas correspondentes estrangeiros. Embora a sua origem seja grega, feito Heródoto, a coruja sempre guardou o maior respeito pelos persas, povo guerreiro que esteve à altura dos gregos nas guerras púnicas. Parece que agora os persas (o Irã) estão se preparando novamente para guerra, em vias de produzir um artefato atômico, isto se, do outro lado, bem próximo, separado pelo Líbano e a própria Síria, os judeus (Israel) não se lançarem contra os persas em uma guerra preventiva. Bastam os exemplos, aonde a pobre coruja acaso apontar suas asas a guerra estará sendo celeremente urdida no mundo: em vez da paz a guerra.

A primeira guerra mundial (1914-1918) começou nos Bálcãs, embora estivesse sendo urdida pelos diversos nacionalismos a pelo menos uma década; a segunda guerra começou com a recusa da Grã-Bretanha em aceitar a ocupação da Polônia pelas tropas nazistas de Hitler, depois de entregar de bandeja a desaparecida Tchecoslováquia. De alguma maneira, ao contrário de hoje, se intuía por onde a guerra poderia começar. Hoje os cenários são tantos que a guerra pode começar tanto pelo oriente médio (o cenário mais cotado), mas não possa ser descartada uma clássica explosão de luta de classes na Europa. A primeira guerra mundial teve vinte milhões de mortos, a segunda dobrou o número; quantos milhões de mortos serão enterrados – com ou sem sepultura – na nova guerra que se está divisando no horizonte? Vai dormir, pobre coruja!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

BACANAL

Manuel Bandeira

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá-se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venosos...
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Alem de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é o meu
fraco!...
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Venus!

In: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida Inteira. Livro Carnaval (Poesia Reunida) . Rio de Janeiro, José Olympio, 1986, p. 45.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

Jaldes Reis de Meneses

Em que pese a magnífica interpretação de Meryl Streep no papel de Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro” (The Iron Lady) é um filme decepcionante, absolutamente sofrível. Tem a serventia de nos fazer revisitar acontecimentos que ainda estão frescos na memória, no entanto tais acontecimentos, no filme, aparecem como um jogo de quebra-cabeças sem relação, a não ser compor o cenário de vida de uma modesta menina, filha de comerciantes de bairro, que foi subindo degrau a degrau, até tornar-se a primeira ministra da Inglaterra. Uma pena ver matéria prima de primeira qualidade desperdiçada.

À primeira vista, poder-se-ia pensar que estamos diante de uma hagiografia da dama de ferro – da força do indivíduo que conquista o mundo, narrativa tão cara ao cinema –, mas acontece precisamente o contrário. A escolha de intimidade da narrativa, é claro, tem o objetivo de "humanizar", tornar "simpático', um personagem que ficou conhecido como duro e inflexível, o foco da narrativa do são as alucinações de uma senhora decrépita, demonstrando senilidade, que se relaciona quase exclusivamente com o marido e a filha, perdendo pouco a pouco os derradeiros fios de vida que a prendem ao mundo. Certamente por isso o filme despertou a ojeriza da família Thatcher. Grande liderança conservadora inglesa depois do insuperável Winston Churchill, Margareth Thatcher merecia melhor sorte no cinema.

Mrs. Thatcher assumiu o poder no cargo de primeira-ministra alguns poucos anos depois que os Beatles já tinham se desfeito e a onda punk (de ideologia anárquico-operária), bem como a purpurina glam (David Bowie), já havia sido assimilada pela indústria cultural. Contudo, seu governo foi contemporâneo de um apogeu da cultura gay, através do Queem (especialmente Freddie Mercury) e dos primeiros clubbers (Boy George). São movimentos cujos efeitos na cultura perduram até hoje. Se houve contribuição de Thatcher aos estilos de vida, mesmo indireto, foi a euforia niilista yuppie, ciosa de ganhar dinheiro, mas incorporando, devidamente depurado de qualquer veleidade política, os trejeitos do glam e do clubber.

Tudo isso para dizer que A Dama de Ferro é um personagem decisivo dos anos 80, compõe o espírito do tempo tanto quanto Madonna ou Michael Jackson. Embora ricos cultural e politicamente (trato na sequência), os anos 1970 foram uma espécie de "década perdida" em termos de economia européia - ao menos para o capital -, e havia no eleitorado inglês uma ressaca com as soluções, que com o tempo foram virando paliativos, dos seguidos primeiros ministros trabalhistas, acossados entre os compromissos com o status quo e um movimento sindical mais forte de toda a Europa. Como não havia mais como servir a dois senhores, os trabalhistas foram apeados do poder. Pudera, em termos políticos, o pacto, tácito ou explícito, entre o trabalho e o capital, típico da regulação do welfare state, foi colocado à prova em toda a Europa, em acontecimentos como a revolta francesa de maio de 1968 e o "outono quente" da Itália em 1969/70.

Resultado: em 1979 assumiu o governo pela primeira vez uma mulher, num mundo em que a política ainda era quase uma exclusividade masculina. Mas, principalmente, chegava ao poder uma personalidade portadora de vontade, oriunda da convicção de tipo religioso a uma ideologia desprezada até então mesmo pelos conservadores mais pragmáticos, que pode ser resumida como uma espécie de confiança férrea na auto-regularão dos mercados e no desprezo absoluto pelos acordos sindicais com o trabalho, pedra de toque da montagem dos diversos welfare state do pós-guerra europeu.

Margareth Tatcher, portanto, pretendia dar adeus aos projetos de paz social de grandes reformadores como o Barão de Beverigde e o sociólogo T. H. Marshall - ideologia prevalecente até aquele momento -, que pretendiam introduzir cápsulas igualdade num regime estruturalmente desigual como o capitalismo. Em bela passagem de seu livro Era dos Extremos, o historiador Eric Hobsbawm demostra que as conquistas dos direitos sociais no pós guerra foram o principal resultado do próprio esforço de guerra, pois o soldado precisa ir ao campo de batalha com as promessas de que no retorno "nada mais seria como antes" (p. 302). Com a assunção de Mrs. Thatcher, a época histórica do contrato de afluência social (a expressão é de T. H. Marshall), dos "trinta anos gloriosos" do capitalismo democrático viu-se numa encruzilhada. Doravante, os ideólogos da vez passaram a ser os economistas da escola austríaca e os politólogos neoconservadores. Nada disso aparece no filme, sequer é cifrado alusivamente.

Em outro diapasão, o filme sequer recorda que foram os soviéticos, o vacilante Mikhail Gorbachev, que batizaram Thatcher com a alcunha de dama de ferro. Aliás, do processo de fim da Guerra Fria – um evento do qual Thatcher foi uma estrela de primeira grandeza – quase não aparece no filme, a não alusivamente, através da exibição de material de época, como os alemães derrubando o Muro de Berlin, seguida de uma simbólica sequência da dança de uma valsa com Ronald Reagan. Ironia da história, na verdade, antes de chegar ao poder, o par de valseiros, Thatcher e Reagan, se puseram veementemente contra os Acordos de Helsinque (1975), cujas cláusulas pelos direitos humanos assinadas em comum entre os soviéticos e os países do ocidente foram depois aproveitadas estrategicamente pelos movimentos de oposição ao sistema comunista, incluindo, entre outro Valack Ravel e o os membros do Solidariedade. A alegação era que os acordos estavam reconhecendo o direito de posse pelo sistema soviético da divisão territorial resultante da segunda grande guerra, o que, na prática, siginificava reconhecer o óbvio. Thatcher e Reagan não viram a princípio o caminho por onde o galo poderia cantar, contudo, já no governo, mudaram a rota e surfaram na onda democrática dos direitos humanos entoada pelos democratas, trabalhistas e, last but not least, pela social democracia alemã.

Por outro lado, a guerra das Malvinas (Falklands, para os ingleses) mereceu tratamento um pouco melhor: em alguns minutos, da Dama de Ferro aparece enérgica e inflexível, indisposta a negociar qualquer proposta conciliatória com o Gal. Galtieri (à época ditador chefe da junta militar argentina). Vale anotar que tanto Thatcher como a junta argentina passava por picos de impopularidade, e a vitória poderia vir a ser a plataforma de saída do fundo do poço. O paradoxo é que os litigantes tinham tudo para se confraternizar, embora para mim haja diferenças respeitáveis entre democracia e ditadura: tanto Thatcher como os generais argentinos se esforçavam para derruir a obra do acordo do welfare state (conservadores ingleses) como o populismo místico peronista sofreu um ataque da parte dos militares argentinos que cotejou o irracionalismo.

Neste ínterim, cabe observar que o filme mente ao insinuar que a posição dos Estados Unidos naquele episódio foi de apaziguamento do conflito (bolas de sabão do roteiro), quando, ao contrário, houve um total alinhamento com as posições inglesas, um total apoio de todas as instituições multilaterais relevantes, ONU, OTAN e a ex-Comunidade Européia (hoje UE). Do lado argentino, restaram as ditaduras militares latino-americanas, a exemplo da brasileira, mas também os movimentos antiimperialistas de esquerda no continente, em inusitada aliança prática.

Contudo, a principal lacuna do filme é que quem assiste aos inumeráveis conflitos em que a dama de ferro se meteu por toda a vida fica com a impressão que ela era somente uma birrenta, um galo de briga (ou uma galinha?) disposta a perder uma boiada para não deixar a contenda. O grave é que as forças políticas em conflito aparecem desprovidas de ideologia no filme. Embora apareça a palavra conservador algumas vezes e Thatcher esteja freqüentemente assediada, dentro de um carro oficial, por uma série de militantes que mais parece uma horda de insanos, trata-se apenas de inexplicáveis emersões abruptas, fadadas a desaparecer em seguida. Para que perder a dimensão didática do cinema? O que se ganha e o que se perde com isso?

Por que a bancada trabalhista lhe fazia ferrenha oposição na Câmara dos Comuns, por exemplo? Ao deixar de fornecer as senhas do conflito, a saga de um personagem histórico público, político até a medula, aparece despolitizada. Não se faz mais filmes políticos sobre políticos como antigamente, penso na filmografia de um Costa - Gravas (Z, A confissão, Estado de Sítio, etc.) ou de um Gelo Ponte corvo (A batalha de Argel, Queimada), quando se te matizava o conflito ideológico por dentro.

Melhor virar o meu argumento crítico pelo avesso. Neste sentido, porém, contraditoriamente, pode-se dizer que, de alguma maneira, as escolhas narrativas do roteiro e da diretora Falida Lloyd prestam involuntariamente uma homenagem à dama de ferro, pois o seu projeto na política era precisamente despolitizar o conflito, jamais reconhecer sujeitos coletivos, mas tão somente cidadãos individuais: - “não existe essa coisa de sociedade. Existem homens e mulheres e existem famílias”, esta a frase mais lapidar da dama de ferro, pronunciada no enfrentamento da greve dos mineiros ingleses. Em filosofia, Mrs. Thatcher postulava um individualismo metodológico e existencial absoluto. A rigor, o filme também postula simplesmente dois níveis básicos: o do indivíduo e da família, por seu turno a sociedade que surge na tela é uma bruma indisforme de escassa explicação.

Se assim o é, com o passar do tempo, a aplicação desta política (que ficou conhecida como neoliberal) haveria de acarretar a perda do respeito aos bens definidos socialmente, numa sociedade desprovida de crença. Na verdade, Mrs. Thatcher vem a lume com o intuito de resolver uma crise aguda do capitalismo, inglês e mundial. Nos tempos dos gabinetes trabalhistas de Harold Wilson e James Callaghan, que ela substituiu, a força reivindicatória do trabalho, greve e mais greves, muitas das quais com resultados vitoriosos, emparedou circunstancialmente o capitalismo. A regulação trabalhista, política dominante desde quando Clement Attlee derrotou nas urnas o mito de Churchill, nas primeiras eleições do pós-guerra, começava a chegar ao término.

Para se ter uma idéia da dimensão do processo, hoje esquecido, como atesta o dublê de economista e dirigente da IV Internacional Ernest Mandou, no livro Capitalismo tardio (p. 126), "... a Grã-Bretanha tornou-se (...) a única potência imperialista que se revelou incapaz de ampliar a taxa de exploração de sua classe operária (...) durante ou após a Segunda Guerra Mundial". Nestes termos, na Inglaterra, em 1971, devido a um intenso movimento grevista, as rendas do trabalho superaram as rendas do capital. Alguma coisa haveria de ser feita. A dama de ferro chegou com todo gás para derrotar a economia política do trabalho, lançando na Europa simultaneamente, duas faces da mesma moeda, o processo de reestruturação produtiva japonês e a precarização informal do trabalho típica do àquela época chamado “terceiro mundo”.

O historiador britânico de extração social-democrata Tony Judt, no brilhante livro “Pós-Guerra – uma história da Europa desde 1945” resumiu a era Thatcher da seguinte maneira: “a revolução do thatcherismo fortaleceu o Estado [no sentido de empoderar o núcleo duro dirigente], fomentou o crescimento do mercado – e dedicou-se a desmanchar os elos que anteriormente uniam Estado e mercado”. , p. 542.

Para François Mitterrand, em galanteio charmoso, pensando bem, olhada melhor e de perto, a dama de ferro exalava sensualidade, tinha os “olhos de Calígula e a boca de Marilyn Monroe”. O êxito político sempre vira objeto de desejo, sempre. Na foto de divulgação do filme, vejo uma foto de Meryl Streep no qual os olhos Calígula e a boca Marilyn são evidentes. Infelizmente, a sugestiva promessa da foto desaparece no filme.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Festim diabólico

Jaldes Reis de Meneses

O homem é um animal de encruzilhada. Não é atavicamente bom nem intrinsecamente mau. Somos um gênero ou uma espécie esquisita dos animais, situada no abismo entre a civilização, a urbanidade, e o “inumano” – esta última palavra a paradoxal expressão criada pela psicanálise francesa, especialmente Jaques Lacan, ou seja, buscando dar conta do reconhecimento da existência de um núcleo duro de insociabilidade em todos nós, testado em tempo integral nas relações sociais cotidianas. Alguns pensadores, como Nietzsche buscaram pensar a encruzilhada a partir de um movimento de superação entre o bem o e mal – sintetizados na parábola do além-homem ou do super-homem –, outros, como Rousseau, pronunciaram o veredicto de que foi a sociedade moderna, desigual e consumista, que perverteu as nossas virtudes naturais em vícios privados. Neste artigo, por demorado, vou me abster da filosofia e procurar o exemplo síntese da arte.

O homem foi concebido como encruzilhada nos tempos do teatro popular da tragédia grega, que no fundo (Hegel diria, em seu conceito) tinha um papel de conservação social pouco percebido nos dias de hoje. Assistindo à representação da vida encenada e realizando por isso uma catarse – a bela expressão aristotélica que substitui o antecedente histórico do exorcismo dos feiticeiros –, de alguma maneira se realizava em ato a uma expiação das dores do mundo.

Desde sempre umas das maneiras de exorcizar a tendência ao mal entre os homens foi representá-lo pela arte. Este o sentido profundo da frase de Nelson Rodrigues de que ele não via diferença entre a tragédia grega e o dramalhão das novelas mexicanas. Não há mesmo.

É preciso olhar a tragédia de frente, olho no olho, ou ao menos representá-la, que nada mais é que racionalizá-la. Desta maneira, quando lemos um romance de Fiódor Dostoiévski, repleto de personagens em situações humanas de limite, a exemplo da urdidura do homicídio por Raskólhnikov em “Crime e castigo” ou a degradação paulatina do grupo político terrorista de Nietcháiev em “Os demônios”, ou mesmo o serial killer tomado por um estado de possessão no romance/cinema de “O iluminado” (respectivamente escrito em livro por Stephen King, adaptado para o cinema por Stanley Kubrick), é por que precisamos periodicamente, sempre e sempre, realizar a nossa própria cartase.

Há um adágio comum de que quem lê ou assiste, repete. Só esporadicamente. A reação mais comum é introjetar os atos do inumano representado como interdito. Por isso, se enganam os que pensam que toda a arte é despossuída de uma dimensão ética e moral. Ao contrário. Simples e realisticamente a ética objetiva da arte significa que ao vermos ou lermos encenadas as misérias da mente humana somos automaticamente instados a não repeti-las. Educar pela arte, portanto, é uma forma de garantir a continuidade da civilização.

Penso nestas questões aparentemente longinquas quando leio nos jornais a notícia dos crimes sequenciados de estrupro e homícidio em Queimadas, cidade interiorana da Paraíba, aparecentemente pacata, como também eram pacatas as cidades de “Veludo Azul” (filme de David Lynch) ou de Dogville (de Lars von Trier).

Repetir o cliche que foi cometido um crime bárbaro é nada entender de barbárie e de Idade Média, como se tivessemos vivido em recentemente, a partir da modernidade, em um tempo histórico imune às manifestações do “inumano”. Em lugar de “bárbaros” foram perpetardos crimes “inumanos”.

“Que está havendo com o ser humano?”, pergunta na televisão, por coincidência, enquanto escrevo este artigo (não tenho problema de concentração em escrever com barulho ou vendo televisão), o Louro José de Ana Maria Braga, a propósito de comentar o mesmo crime de Queimadas. Poderia devolver ao Louro a pergunta, perenizando-a numa espécie de caixa acústica do eterno presente: - “o que há com o ser humano”, querido e simpático papagaio?

Em cenários diferentes (no filme, era um apartamento metropolitano; na vida “real” uma casinha no cariri), há um filme de Alfred Hitchcock – Rope, “Festim diabólico” no interessante título brasileiro – que num aspecto essencial se parece como que um remake paradoxal antecedente, por assim dizer, dos acontecimentos de Queimadas: na ficção, o homicídio planejado de um colega de faculdade, foi festejado pelos convivas numa festa literalmente sobre o cadáver, escondido embaixo de um centro de flores na sala do apartamento, ao passo que os homicidas e estrupadores de Queimadas planejaram um festim de luxúria e servícias, que só poderia resultar ao cabo em estrupo e homicídio.

Humano, demasiado inumano.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Praça de guerra

Jaldes Reis de Meneses


A crise da greve da polícia militar da Bahia é grave. Não se trata simplesmente da greve de uma categoria em luta por reajuste salarial. Talvez desde os remotos acontecimentos de 1988 em Volta Redonda (RJ), ocasião na qual operários da usina siderúrgica foram mortos em uma ocupação militar, nunca estivemos tão perto de um enfrentamento direto entre uma força armada e grevistas.

Contudo, os acontecimentos da Bahia são até mais insólitos que os de Volta Redonda: naquela época, as tropas do exército dissuadiram uma rebelião que estava a acontecer no chão de uma fábrica – o alvo era uma rebeldia econômico-corporativa do trabalho, embora, naquele momento de elevado alcance político geral –, ao passo que as tropas militares de agora estão estacionadas numa praça, em frente à Assembléia Legislativa baiana, que virou praça de guerra, visando caçar os colegas de farda da política militar.

No tempo pregresso da Nova República, era Estado contra trabalho e hoje se trata de Estado contra Estado, mais precisamente da corporação militar do Estado. Rebuscando mais a história; desde a luta das diretas-já, quando o tresloucado general Newton Cardoso, a mando de um decreto de emergência expedido pelo esquecido (felizmente) presidente Figueiredo, o Brasil volta a presenciar cenas de cerco a um parlamento por tropas militares. Sem tirar a razão emergencial de Estado do governo baiano; acossado pelos fatos, tomar a atitude forte de transformar do Centro Administrativo estadual em Salvador numa praça de guerra – afinal, vem aí o carnaval, a sociedade manifesta insegurança em andar pelas ruas, o comércio fecha as portas, etc. –, é preciso meditar sobre os processos de fundo de tais acontecimentos.

Entre o Brasil do século passado e o Brasil pós Plano Real, entretanto, há diferenças que não podem ser escamoteadas. Na era Sarney (1988), o Brasil se encontrava no auge de uma crise econômica parecida com a que vive hoje países europeus, a exemplo da Grécia e Portugal, enquanto, hoje, ao contrário, o país continua a viver, por sobrados motivos sobre os quais não preciso me deter, um clima de otimismo. Tenho chamado as greves recentes no serviço público (saúde, educação, segurança) – em contraponto a muitas análises esquemáticas à direita e à esquerda – como “greves da afluência”, ou seja, trata-se um típico conflito redistributivo em torno da expansão do bolo econômico e principalmente do fundo público.

O fato é que houve recentemente no Brasil um processo de ascensão social daqueles que Paul Singer chamava em seus estudos de economia política desde os anos 60 de “subproletariado”, ou seja, a imensa massa popular que margeia o mercado de trabalho a partir do trabalho doméstico e informal. No entanto, embora tenha havido um crescimento da massa salarial em geral – inclusive no setor público (cujos índices são saturados pelas chamadas “carreiras de Estado”) –, por outro lado ficaram de fora da bonança os trabalhadores médios do Estado, principalmente nas áreas de educação, saúde e segurança pública. Pode-se reprimir como quiser, mas o problema da participação desses setores na massa de recursos do fundo público é uma questão que tem de ser abordada de maneira séria, despidos de volteios retóricos, urgentemente.

Política de rendas (diferentemente de aumentos salariais, conseqüência direta dessa política) não pode ser tratada como mero problema estadual corriqueiro, motivo do habitual entre governo e oposição nas assembléias estaduais (embora a bomba esteja explodindo na mão dos governadores, a maioria deles premidos pelos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal), mas de toda a federação e do executivo federal.

É mais do que hora de um acordo nacional a propósito da PEC 300, uma bandeira que mais tem sido utilizada como instrumento de demagogia de oposição aos governadores (inclusive da parte de parlamentares do PT, que agora está provando do próprio veneno) do que de propriamente de resolução. Parece ter sido preciso a crise estourar em um governo dirigido por uma liderança importante do PT para o governo federal, enfim, aparecer com o ar de sua graça. Acompanhemos os desdobramentos dos acontecimentos da Bahia, pois são bastante importantes. E que Baco tenha tranqüilidade para sair às ruas no carnaval. Evoé, Baco!, cantava em versos o poeta Manuel Bandeira.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

J. Edgar Hoover: sexualidade e poder

Jaldes Reis de Meneses

O artista consciente de seu ofício, em pleno domínio do artesanato estético, jamais escolhe de improviso os elementos de sua composição. O filme “J. Edgar” (direção de Clint Eastwood, em exibição nos cinemas da cidade) contém pelo menos duas escolhas estéticas aparentemente simples que compõem o fundo sobre o qual vai girar o conteúdo da narrativa.

A começar pelo próprio título: figura pública, o chefe do FBI por 44 longos anos era mais conhecido na imprensa como J. Hoover do que J. Edgar, como talvez fosse chamado na intimidade. Em seguida, a fotografia soturna, repleta de sombras, em que são captados os anos 20 do século passado e o período do New Deal (anos 30 e 40) – período da juventude de Hoover, no qual ele montou a máquina investigativa do FBI -, contrasta com o colorido das cenas públicas dos anos 70 (a exemplo da parada pública da vitória presidencial de Nixon).

Qual o motivo das escolhas? A do título é evidente. O diretor quer ir mais fundo na dissecação da personalidade de J. Edgar Hoover, contornando os sentimentos de asco ou adesão inevitáveis quando o assunto é um personagem histórico polêmico, homem de convicções de direita, de métodos de trabalho oscilante entre o racional e o truculento. O objetivo de Eastwood é definitivamente pretensioso: sem desprezar o lado público do personagem, presente no filme, o diretor pretende investigar os recantos da alma de Hoover, até mesmo sua relação com a sexualidade. Em se tratando de um homem que montou e comandou com mão de ferro décadas a fio a maior e mais competente máquina policial de que se tem notícia – o FBI americano –, a questão central do filme, enfim, reside nas relações entre sexualidade e poder.

Não é um tema fácil. Desde após os tempos dos césares romanos, especialmente através das caricaturas de Nero e Calígula, as relações entre sexualidade e poder são condenadas. A bem da civilização, deve-se dissociar um do outro, este foi o argumento cristão à decadência do Império Romano. Contudo, expulso pela porta, a sexualidade sempre retorna pelas frestas, pelo pensado impronunciável. O fascismo, por exemplo, embora aparentemente casto e disciplinador, se examinarmos de perto, é pura simbiose entre sexo e vontade de potência. Não é à toa que todo o alto comando das SA (tropas de assalto) hitlerista era composto de homossexuais. O excesso de poder pode liberar também as pulsões sexuais, disso sempre soube qualquer cortesão, desde o velho Rasputin na corte dos Romanov.

Evidentemente, a homossexualidade é das expressões livres que pode assumir a sexualidade, não é este o ponto central, mas o elemento de que o fascismo mascara as relações de sexo e poder – é uma para dentro e outra para fora. Quem expressou notavelmente no cinema as relações entre fascismo e sexualidade no cinema foi Pier Paolo Pasolini, em “Saló, ou 120 dias de Sodoma”.

Seria inconcebível um agente de poder que escondesse suas preferências sexuais, feito J. Edgar Hoover, casto e homossexual, em tempos gregos ou romanos, assim como hoje as autoridades começam a sair do armário. Falo um óbvio repleto de conseqüências: os anos de começo do século XX são registrados de maneira soturna pela lente de Clint Eastwood por que estes foram os tempos finais de égide da moral vitoriana – puritana e ascética –, combinados com nascimento do fordismo como método de organização da produção e do consumo de massas. Inclusive nos métodos policiais, pois qual o significado da compulsão de Hoover pela inteligência e a racionalidade investigativa senão uma espécie de transposição do fordismo para as sendas da polícia? Longe da pretensão de ser um filme noir policial dos anos 30 ou expressionismo alemão dos anos 20, há reminiscência de ambos na fotografia do filme de Eastwood, no sentido de que os dois (noir e expressionismo) são transgressões do vitorianismo, porém, inescapavelmente contemporâneo a ele.

O vitorianismo morreu como moral burguesa. É nisto que Lacan estava pensando quando decretou a morte do pai. E o pai entrou em crise exatamente na época e nas frestas do fordismo. J. Edgar Hoover é uma cria sexual típica da “morte do pai”, um jovem de pai fraco totalmente sucumbido pela mãe controladora, que tinha sonhos de potência para o filho. Embora identificado com a figura feminina da mãe – assimilou a vontade de potência que ela lhe transmitiu –, no reino da sociedade, Hoover só poderia ter vez e voz se assumisse a carapuça de um “macho”. Assim fez-se o homem duro.

Em termos específicos de cinema, é vitoriano o raciocínio de André Bazin quando ele afirmou num texto famoso (“À margem do erotismo no cinema”, 1957), que o ato sexual jamais se poderia consumar diante das câmeras, pois equivaleria a exigir que, “num filme policial se mate verdadeiramente a vítima”. “J. Edgar” é um filme que retrata o tempo em que não se filmava o ato sexual no cinema, ao contrário dos anos 70, a partir de quando se filma o ato sexual o tempo inteiro (“Garganta profunda” é um marco da história do cinema?, acho que sim). Pode-se dizer que se morre a cada vez que o sexo aparece sem cortes em cena, mas filma-se. No filme de Clint Eastwood os anos 70 são mais coloridos. Nem por isso mais fáceis. Mas este seria o mote para outro artigo... Quem sabe sobre outro filme, “Milk”, “Filadélfia”, “Morte em Veneza” ou “Brokeback Mountain”?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Considerações extemporâneas

Jaldes Reis de Meneses

Ao final da noite de terça-feira, ainda acordado e sonolento, os sentidos dos meus olhos e ouvidos um tanto em estado alfa, desatento ao chato desenvolvimento do enredo da série global “Brado retumbante”, meu corpo parecia finalmente ceder ao sono. No entanto, a cena de uma sentença peremptória pronunciada pelo interlocutor do presidente brasileiro de ficção, Paulo Ventura – às voltas com o dilema de aceitar a opção transexual de um filho –, me pôs os neurônios a funcionar a pleno vapor – “Paulo, você ainda é um homem do século XX”.

Curiosa coincidência. Havia lido a mesma frase no sábado, em um artigo de meu caro amigo de adolescência, o jornalista Silvio Osias, no jornal “Correio da Paraíba”, a propósito do hábito de cultivo pelos jovens de hoje de música a granel, através dos arquivos de MP3, e o conseqüente desaparecimento em música pop do conceito de “álbum” – a experiência de audição de uma série de canções cujo conteúdo forma uma totalidade temática –, de que “Sargent Pepper’s” (1967) dos Beatles sem dúvida é um marco, sei que concordamos tanto eu como Silvio, com saudades dos tempos de 1976 em que escutávamos música quase todas as noites no alpendre de sua casa, na Avenida Conceição em Jaguaribe.

Deixem-me completar o raciocínio com um terceiro exemplo, mais remoto. Em trecho de seu belo depoimento pouco antes de morrer em 1970, no pequeno livro “Pensamento vivido”, o entrevistador pergunta a Georg Lukács um veredicto sobre as vanguardas artísticas, ao que ele responde, um tanto na defensiva, algo assim – “eu sou um homem do século XIX”.

Três contextos diferentes, a mesma sentença. Poderia multiplicar outros exemplos. O acaso não acontece à toa. Isto pode significar que existe disseminado aleatoriamente aí pelo mundo certo espírito do tempo de ultrapassagem da cultura do século XX, no que tinha de ruim (o preconceito) e de bom (a concentração na fruição artística). O problema é quando o “espírito de tempo” impõe-se na condição de imperativo categórico, norma de conduta discriminatória da pseudo “atualização” de uns e “desatualização” de outros. Dividir o mundo entre “atualizados” e “desatualizados” é o terreno da ilusão e da ideologia: o chamamento a comportar-se em manada, através de um padrão único, é precisamente por onde se esvai o pensamento crítico.

Na verdade, antes de sermos de século XX ou XXI, melhor sermos extemporâneos. Obviamente, minha referência neste caso é Nietzsche, que se dizia alegremente um extemporâneo, um homem “fora ou além do tempo”. Estou de acordo do Drummond em seu belo verso, “... ficou chato ser moderno, agora serei eterno”. Com este verso, o poeta mineiro estava ultrapassando uma fase de sua poesia, nos primeiros livros integrados aos cânones do movimento modernista (o verso livre, o poema piada, etc.) e alçando uma dimensão nova, propondo-se a dialogar com toda a tradição poética universal. Não estou fazendo crítica literária, mais que isso, estou pontuando que, ao se propor fazer “poesia eterna”, Drummond estava praticando duas ações: aumentando o grau de exigência estética de sua poética, já que a medição de qualidade, doravante, passava a ser toda a tradição poética, em vez do gueto modernista, e principalmente, existencialmente, alçando a liberdade.

Em síntese, Drummond, ao dialogar com a tradição universal em poesia escapava de querer parecer um eterno “jovem modernista” – detesto os macaquinhos que querem parecer eternos jovens de acordo com os cânones da moda, pais sem senso do ridículo que se comportam como os filhos –, como também, como pode a primeira vista parecer, não assumia a posição de uma sabedoria especial conservadora, feito Nelson Rodrigues, ao aconselhar os jovens a “envelhecer”.

Para mim, o giro libertário de Drummond consiste em alternar os parâmetros da questão: tanto o “eterno jovem” como o “velho conservador” são reações bobas ao fenômeno do tempo, a recusa em reconhecer como Santo Agostinho, que o tempo é o mais misterioso dos conceitos. Ser extemporâneo nada mais é que colocar-se à altura do mistério do tempo. Como diz Paulinho da Viola: gostar de Cartola ou Noel Rosa não é saudosismo, mas trazê-los ao tempo de hoje. Vou mais longe: gostar de Adele ou Amy Winehouse (duas cantoras talentosíssimas), não significa querer se curvar aos saborosos gostos juvenis das duas (prefiro os gostos de Adele), mas simplesmente reconhecê-las, por assim dizer, imersas no mistério do tempo.

Gosto de sair às ruas de qualquer cidade grande – flaneur benjaminiano – e admirar como hoje as pessoas trajam de maneira diferente e reinventam a ditadura padrão da calça jeans e das camisas de grife: alguns de gravata e paletó, outros de piercing e tatuagem, uns poucos juntando tudo, um caleidoscópio imenso de formas, cores, combinações, estilos de vida e comportamento. Todos são do mesmo tempo por que não precisamos ser iguais para cultivar o valor da igualdade: somos os extemporâneos do século XXI. Que a lição das ruas chegue ao pensamento.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As raízes da popularidade de Dilma

Jaldes Reis de Meneses

Cultivo há vários anos um hábito que aconselho às pessoas que pretendem acompanhar sistematicamente os movimentos de conjuntura política no Brasil: vasculhar muito mais além dos atores principais que ocupam a primeira página dos jornais, seja estes atores as principais lideranças e os principais partidos, os grandes jornalistas ou os malsinados “formadores de opinião”. Por exemplo, para acompanhar a conjuntura no Brasil é preciso saber como estão pensando os núcleos intervenientes, mas situados à margem do espectro político, ausentes das casas parlamentares e do jogo institucional palaciano, desde a ultra-esquerda (PSTU, PCB, etc.) até os generais de pijama do Clube Militar do Rio de Janeiro.

Em tempos recentes começou a circular no campo da ultra-esquerda uma expressão síntese em mal português, visando abarcar a totalidade da situação brasileira em 2012, mas que na verdade simplesmente reflete a perplexidade analítica de quem a enuncia: apassivação. Como é óbvio, apassivação significa que a sociedade brasileira, passado o período tumultuoso da chamada “década perdida” (anos oitenta), derrubada a inflação e criado o plano real, a partir de 1994 começou aos poucos a entrar num período novo de domínio burguês, no qual o Estado e as elites enfim possuem nas mãos os cordéis de apaziguamento do conflito social. O apaziguamento estreou nos anos de FCH, foi aperfeiçoado na era Lula e encontra seu momento de maturidade neste primeiro ano de governo Dilma. Trata-se de um aproveitamento livre do conceito de revolução passiva de Antonio Gramsci, porém sem a riqueza heurística das sugestões do genial filósofo político italiano.

Em Gramsci, revolução passiva não significa calmaria. Ao contrário. Na interpretação de Gramsci, os processos de revolução passiva, em vez de “apassivação” são de intensas “transformações moleculares”, ou seja, enquanto a superestrutura política aparenta imobilidade, por baixo, nas estruturas sociais, ocorre uma seqüência de alterações cujo resultado, ao cabo, será a modificação da própria superestrutura. Desta maneira, “apassivação” é somente aparência, vivemos no Brasil uma dessas seqüências de transformações moleculares na estrutura social. Parafraseando Galileu Galilei, “eppur si muove”.

A grande “transformação molecular” brasileira contemporânea é o complexo processo de afluência social de ascensão das classes mais baixas ao consumo permanente, um fenômeno social formidável de fomento do mercado interno, de alguma maneira revirando e realizando, quando menos se esperava, as velhas programáticas populistas do discurso pré-1964 de lideranças como Leonel Brizola e Miguel Arraes. Ao revés dos defensores da tese do apaziguamento, a afluência social dos de baixo está longe de interditar a luta de classes.

Neste ínterim, cabe um comentário, lateral, mas importante: em geral, o processo de afluência das classes mais baixas tem sido interpretado erroneamente como a criação de uma “nova classe média de tipo C”. Na verdade, o que estamos a assistir é a formação de uma nova classe trabalhadora, uma passagem da condição de subproletarização de milhões de brasileiros para o acesso ao trabalho formal ou até ao empreendedorismo individual, mas de todo modo vinculado ao mundo do trabalho. A quem duvidar, basta consultar os dados referentes ao desemprego do IBGE: embora a realidade ao mesmo tempo subdesenvolvida e neoliberal da informalidade perdure, a dinâmica econômica ascendente encontra-se hoje no mercado de trabalho formal.

Alguns devem ato contínuo perguntar: se a dinâmica social atual situa-se no mundo do trabalho qual o papel do bolsa-família e demais programas de transferência de renda? Para surpresa dos críticos à esquerda e à direita – que se contentam com um crítica moralizante –, a enorme importância do bolsa-família reside no seu papel estrutural de fomento das condições do trabalho popular no Brasil.

Explico-me. O bolsa-família tem um sem-número de papeis, vários deles descobertos na própria execução e nos estudos a posteriori do programa. Para mim, somente agora, com o aprofundamento dos estudos acadêmicos, estamos chegando a formular uma economia política dos programas de transferência de renda, saindo da cilada moral de que transferência de renda é esmola.

Logo que foram lançados, tais programas foram interpretados – correta e insuficientemente – na dimensão política da hegemonia (basta recordar os usos e abusos de Lula na exploração popular do programa) e na dimensão econômica – de viés neokeynesiano – de um incentivo em renda ao consumo dos pobres. São as dimensões mais evidentes, sem dúvida. Todavia, o bolsa-família é também fundamental na dimensão menos evidente da produção e reprodução da força de trabalho, ou seja, nas condicionalidades do programa, como a obrigação de escolaridade dos filhos e a atualização do cartão de saúde, configuram, minimamente, que seja, uma unificação do mercado de trabalho no Brasil. Somente os que desconhecem o Brasil, podem subestimar o impacto que contém tais condicionalidades, do Acre ao Rio de Grande do Sul, doravante, para o acesso ao mercado de trabalho requisita-se uma escolaridade mínimade mínima e um cuidado com a saúde. Nos termos de Marx, portanto, bolsa-família é também produção.

Ninguém dá nada de graça. Muito menos os pobres. Este é o equivoco da tese da apassivação. O historiador Jorge Ferreira carioca escreveu um livro bastante instrutivo sobre o apoio popular ao presidente Getúlio Vargas nos tempos do Estado Novo, “Trabalhadores do Brasil – o imaginário popular (1930-1945)", no qual ele seleciona as cartas que pessoas comuns do povo enviavam ao presidente-ditador. Distante de qualquer adesão sem permuta constata-se na leitura do livro todo um jogo espontâneo de contrapartidas, em linguagem simples, entre o ditador e seus apoiadores.

Neste sentido, as raízes da popularidade de Dilma (aprovação de 59% e 61% entre os que estudaram até o ensino fundamental, anunciado na pesquisa Datafolha de ontem, 23/01/2012) são ainda a continuidade das políticas plantadas principalmente no segundo mandato do presidente Lula. A era do Lulismo segue continuidade, agora com Dilma à frente. Enganam-se os que creditam na “faxina” (a demissão de alguns ministros) o eixo da popularidade de Dilma. Embora domine o noticiário na grande imprensa e nos portais da internet, a faxina funciona mais como um plus, um bem-vindo complemento de popularidade. Este, aliás, o erro da oposição institucional do PSDB, cujo foco exclusivo reside nas denúncias. Cai e entra ministro, enquanto, molecularmente, segue ativo o diálogo e a permuta entre a presidente e as classes sociais emergentes.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

2011: a política das ruas

Jaldes Reis de Meneses


A revista semanal americana de maior tiragem, a Time – formadora da opinião do homem médio dos Estados Unidos –, lançou nas primeiras décadas do século passado uma escolha que em seguida fez fortuna na imprensa mundial: as indefectíveis listas jornalísticas das “personalidades do ano”, cujo primeiro lugar em geral é ocupado por chefes de Estado, líderes religiosos, artistas ou até personagens mundanos da sociedade do espetáculo. Em 2011, relevando certo “espírito de tempo” (o elogio do conformismo, da não-participação), a escolha foi diferente.


Havia um precedente. Somente por duas vezes, em vez de um personagem individual, um solidário indivíduo de carne e osso, a escolha da Time recaiu sobre um personagem coletivo. Em 1954, o escolhido foram as massas participantes da revolução húngara dos conselhos, dizimados pelas tropas do Pacto de Varsóvia. E, novamente, agora, neste formidável ano de 2011, chegou a hora do The Protester – assim mesmo, em forma substantivada, O Protestador, ou seja, os “protestadores” da “Primavera Árabe”, os jovens europeus do movimento dos desempregados e os cidadãos norte-americanos do movimento de protesto contra o capital financeiro, o “Ocupe Wall Street”.


Depois de 1968 – que não foi escolhido ao seu tempo pela Time –, eis que surge um ano no qual as ruas e as praças pontificaram na política mundial, feita a citação da notável ausência da America Latina e do nosso Brasil (os movimentos estudantis do Chile pelo ensino público devem ser mais analisados como a exceção que confirma a regra). Ao contrário do que clama o discurso de direita, com a chegada da esquerda ao poder de Estado – desde a soft de Dilma e Lula ou a hard de Chávez –, o continente vive um momento de desenvolvimento econômico e estabilização da política. Os ventos da crise econômica mundial ainda não fizeram estrago à sensação de bem-estar quase generalizado que se experimenta nos nossos países. Em suma, o ciclo econômico e político da América Latina, por enquanto, destoa do ciclo mundial. Poderia argumentar várias hipóteses de trabalho à apreciação da exceção continental, todavia me faria desviar do foco deste artigo.


Quero tratar do que denomino de “política das ruas”. Saúdo com os olhos brilhando e o coração batendo mais forte a política das ruas, mas devo também expor os desafios e impasses que acompanham os movimentos de protesto massivo. Foi bonita a festa, pá, contudo, o que fazer no “dia seguinte”?


Ao que me recorde, um dos primeiros intelectuais na modernidade que decantou a beleza do povo nas ruas (a expressão que designava The Protester nos séculos XVIII e XIX) foi o historiador romântico francês Jules Michelet.

Em páginas que hoje são um clássico não apenas da historiografia, mas da literatura, Michelet atribui à Revolução Francesa, mais que à ação do Abade Sieyès (o intelectual que lançou a proclamação do poder ao Terceiro Estado) ou aos clubes secretos, às figuras anônimas, tipo ideais, de “Jaques”, o simples camponês, e das mulheres oprimidas. Para ele, a explosão revolucionária tinha o rosto sem nome das mulheres sem direitos e dos camponeses explorados pela corvéia feudal.


No entanto, conforme Michelet, o segundo ato da revolução francesa produziu um paradoxo: o produtivismo das massas anônimas logo feneceu; sucedeu um processo de transferência de poder para um “outro” sujeito, os jacobinos (que Michelet comparava aos jesuítas, um compacto partido determinado a alcançar um objetivo). É uma maneira cativante, mas superficial, de abordar o problema. Michelet realmente era um romântico: não analisava as revoluções como estratégia, como relações de forças, enfim, como capacidade de direção política, apenas como explosão.

O “paradoxo de Michelet” – chamemo-lo assim – revive nos processos atuais: à promessa difusa de democracia dos manifestantes da Praça Tahrir no Cairo (Egito) adveio as eleições na qual se sagrou vencedora a Irmandade Mulçumana, um grupo tradicional da política islamita, o que mais havia de organizado na sociedade civil egípcia quando do estouro dos protestos. É importante ressaltar que, embora tenha participado da praça, a Irmandade não comandou o movimento. Até como tática, escondeu seu programa.


Pois bem, a praça tentou boicotar as eleições, mas só conseguiu atrair a repressão militar. Nada com capacidade de direção política foi criado diretamente da praça, cuja potência foi aproveitada exatamente pela capacidade de direção política da Irmandade, que tinha uma proposta para o “dia seguinte”. Da mesma maneira, os protestantes de Wall Street ou os jovens desempregados espanhóis, entre milhões de manifestantes, precisam aprender uma exercitar o dia seguinte no hoje. A própria Time, aliás, tem uma proposta de lugar para os movimentos, retirando-lhes quaisquer veleidades emancipacionistas: os rebaixa ao papel de “advertência” às autoridades.


Afirmar que 2011 foi o belo ano cenográfico do “protestador” é bonito, porém insuficiente. Que 2012 seja um ano de emancipações e não simplesmente das oportunidades perdidas. Estas são as minhas últimas palavras, direto de 2011. A vida é bela e contraditória, felicidades a todos os que me lêem.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A política da dose de uísque

Jaldes Reis de Meneses

Quanto mais uma sociedade realizar reformas mais ela se aproxima da revolução. A frase é de Alexis de Tocqueville, nas palavras finais de “O antigo regime e a revolução” (1856), obra clássica do pensamento moderno. Como se deduz facilmente, um dos sentidos da frase de Tocqueville é uma contradita ao pensamento convencional de que a as concessões, o atendimento das reivindicações, necessariamente conduz ao apaziguamento dos conflitos. O segundo sentido é mais sofisticado: as reformas abrem o caminho das revoluções por que o seu resultado possibilita o aparecimento de novas forças sociais com vocação de hegemonia política.

Trato neste artigo do primeiro sentido de Tocqueville. O resultado da reforma nem sempre é concertar a paz. Política é primariamente (prestem a atenção na carga simbólica deste advérbio), como o sabiam pensadores distintos como Nietzsche ou Gramsci, uma relação de forças, uma espécie de queda de braço, muitas vezes trágica, entre dois contendores.

Só pode haver a paz caso os dois lados estejam dispostos a concertá-la. Senão, o lado que oferecer o gesto de estender a mão pode ser avaliado, pelo outro lado, como uma oportunidade de desferir um mais um golpe. Neste caso, pouco interessa ao agressor a verdade da reforma. Por isso, por torcer a verdade, a política destrutiva de encarar a relação de forças como simples manifestação de uma vontade atávica de potência, é primária. Trata-se de um veneno perigoso: pode um dia voltar-se contra a quem a pratica.

Somente quem é do PSTU – este simpático partido trotskista brasileiro –, deve saber de primeira quem foi Mahuel Moreno. À grande maioria, devo apresentá-lo como um dirigente da IV Internacional, que formulou uma leitura interessante do chamado “Programa de transição”, escrito pelo velho Leon Trotsky em 1939, às vésperas da segunda guerra mundial visando realizar, em período de aguda crise do capitalismo, uma saída revolucionária. A partir da leitura do manifesto de Trotsky, Moreno criou o que denominou de “política das exigências”, ou seja, em negociações de movimentos sindicais e econômicos, deve-se exigir sempre um grau acima das possibilidades, pois assim expõem-se em praça pública os limites e as contradições da exploração capitalista. O objetivo dos trotskistas é altruísta: bem ou mal, pretendem fazer a revolução.

Mas existe a perversão da “política das exigências” – em geral aplicada de maneira intuitiva por gente que nada tem a ver com trotskismo e corre de medo de uma revolução –, que gosto de chamar de “política da dose de uísque”. À medida que o sujeito vai fazendo exigências “um grau acima”, o álcool vai subindo à cabeça, os números vão se embaralhando, as realidades vão se assombrando e virando delírio.

Alguma coisa a ver com a oposição paraibana?

sábado, 10 de dezembro de 2011

Europa

Jaldes Reis de Meneses

Para entender melhor o que está acontecendo na Europa é preciso se afastar um pouco das tertúlias do dia a dia e conhecer a história. Quando, hoje, os chefes de Estado da França e da Alemanha, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, apesar das diferenças internas, finalmente apertam as mãos e estabelecem uma única proposta (união fiscal, imposto sobre operações financeiras, auxílio em dinheiro para estancar a crise de liquidez dos bancos, etc.) aos demais parceiros da União Européia, eles repetem o mesmo incerto e surpreendente gesto que fizeram Robert Schuman e Konrad Adenauer, sob as bênçãos dos Estados Unidos e desconfianças da Inglaterra, entabularam um processo de negociacoes que culminou, no remoto ano de 1951, na criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço, através dos protocolos do Tratado de Paris, base da futura União Européia.

Desde então, França e Alemanha, esqueceram a história do século XIX, o acordo de Versalhes (1918), as disputas territoriais da Alsácia-Lorena (precisamente as regiões das fontes energéticas do carvão e do aço) e acertaram um projeto hegemônico comum. Doravante, França e Alemanha – a primeira, uma nação de império decadente; a segunda, a grande derrotada da guerra recém finda – pretendiam passar a compor o núcleo duro de um pequeno continente de 5,5 milhões de km2 (excluindo a Rússia e a Turquia), menor que a área do Brasil, mas um caldeirão de raças, línguas e culturas.

É verdade que a chamada cristandade, encarnados pelo antigo Império Carolíngio (França) e o Sacro Império Germânico, poderia ser invocada como um traço unitário de longa duração da Europa, bem como do pacto franco-germânico. As longas durações costumam enganar. Neste sentido, o projeto da União Européia, ao inverso da cristandade, é absolutamente moderno. Ou seja, do ponto de vista político, o que se pretende é a criação de um complexo bloco regional laico e cosmopolita, arrefecido de qualquer simbiose entre religião e política. Mas nem tanto. Para além da religião institucional, contudo, não deve ser considerado elemento fortuito que, tanto no passado como no presente, através de Schuman/Adenauer e Sarkozy/Merkel, são os mesmos partidos, ambos situado no centro-direita, moderados e católicos, que se dão as mãos em torno do projeto europeu.

Gostaria de dissipar este mito: rigorosamente, o projeto de união da Europa no pós-guerra não tem origem na esquerda, trabalhista, social democrática ou comunista. Na verdade, ele apareceu como uma tábua de salvação pragmática de duas classes dominantes cansadas e derrotadas, em busca de saída para os respectivos capitalismos. No começo, quem operou como verdadeiros intelectuais orgânico deste novo projeto foram os partidos católicos. Com o tempo, logo a social democracia incorporou o projeto da união da Europa, trazendo a classe operária para o compromisso de classe. Ampliaram-se as bases sociais do projeto europeu.

De todo modo, a União Européia trata-se de uma uma complexa engenharia econômica, um acordo racional das elites, mas sempre teve dificuldades de passar pelo crivo da soberania popular. Nao é à toa que o cidadão europeu comum costuma falar com desprezo nos “burocratas de Bruxelas”. Reside precisamente neste aspecto, a dificuldade em dotar a União Européia de um arcabouço institucional atinente à democracia e a soberania popular, a raiz, o nervo, da crise política de mais longo prazo, que soma-se ao ritmo voraz da econômica atual. Por isso, as decisões das cúpulas européias sempre foram recebidas à forceps pelo homem comum. Há muito mal estar represado na sociedade civil dos parceiros da União Européia, que explode nas formas simplistas, mas eficazes, do populismo político e econômico, uma corrente que tem futuro próximo no mundo europeu, não se enganem. Gramsci teria uma fórmula sintética para tudo isso: há um gravíssimo déficit de hegemonia nas instituições européias.

O nosso Aristides Lobo, à guisa da proclamação da República pelo Marechal Deodoro, dizia que o povo assistiu a tudo aquilo bestializado. Coisa parecida está acontecendo na Europa. Recentemente, tivemos na Grécia e na Itália dois golpes brancos de Estado. Esta é a metodologia da crise. Na Grécia, caiu o primeiro ministro porque se atreveu a propor um referendo para os acordos com a União Européia e o FMI. Na Itália, o bufão Berlusconi cedeu a cadeira a um circunspecto professor universitário oriundo do capital financeiro e sua equipe de ministros, como eles mesmo se dizem, “apolíticos”. Mas sempre há limites à bestializaçao... Até quando resistirá a União Européia?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Nordeste Político

Jaldes Reis de Meneses

Artigo publicado originalmente na revista Nordeste (setembro/2011).

Desde a aparição do primeiro exemplar, em 2006, a revista Nordeste tem acompanhado (nos tempos do antigo Repórter Esso dir-se-ia tem sido “testemunha ocular da história”) um dos momentos fundamentais de viragem da vida política do nordeste brasileiro e será, com certeza, daqui por diante, uma fonte inestimável ao trabalho dos historiadores no futuro.


Encerramos um ciclo político e começamos outro: pela via do sufrágio eletrônico universal, o conteúdo da composição do voto nos grandes centros urbanos foi se aproximando e engolfando o mundo rural. Uniformizamos mais nossas escolhas e preferências, as oscilações de opinião pública e os movimentos de sociedade civil começaram a sobrepujar em definitivo as estruturas atávicas do patrimonialismo, este persistente rebento originário do regime familiar da economia política patriarcal narrada por Gilberto Freyre em Casa Grande&senzala.


Ensina-nos indelevelmente o mestre de Apipucos a originalidade da formação brasileira, cujo berço é o nordeste: ao mesmo tempo, aqui foi construído um regime patriarcal escravista, diferente do patriarcalismo europeu-feudal, adjunto a uma economia doméstica e um sistema de clientela. O pai, no regime europeu sempre foi fiel ao ramo familiar, com poucos ramos descendentes de origem lateral, ao passo que, no nordeste, a família patriarcal contou com a participação ativa da concubina, uma espécie de “família dois” miscigenada. Vale dizer, entre nós, a violência do estupro e a dissimulação do favor, o “jeitinho”, compôs uma mesma perversa cápsula histórica. Tais são os fundamentos de nossa tragédia.


O partido da mensagem suturou o partido das estruturas. Podem-se fazer as críticas (a crítica trata-se de uma necessidade nas democracias modernas) que se quiserem aos atuais governantes do nordeste, mas, indubitavelmente, renovaram-se as caras das principais lideranças políticas, alterando a cartografia política regional: ninguém foi eleito com apoio primordial no velho patrimonialismo de origem patriarcal, isto na região brasileira em que ele ainda constitui o núcleo duro da cultura política. Em definitivo, o capitalismo (capital e trabalho, corporativismo empresarial e cidadania) chegou e desembarcou na política nordestina.


Senão, vejamos: na Bahia, Jaques Wagner (PT) destronou (e repetiu a dose em 2010) a oligarquia moderna (mais adiante, explico a expressão) de Antonio Carlos Magalhães; em Sergipe, Marcelo Deda, advogado e fundador do PT nos anos 1980, ascende ao posto de governador por duas vezes; em Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) consolida de vez um processo de hegemonia que começou nos idos dos anos 60, com as lutas da Frente Popular do Recife; na Paraíba, foi eleito recentemente (2010), de maneira surpreendente e acachapante, Ricardo Coutinho (PSB), um funcionário público de origem nos estratos de baixa classe média; no Ceará, Cid Gomes (PSB), dá continuidade ao que talvez seja o primeiro desses processos de renovação política; no Piauí, Wilson Martins (PSB), também continua os dois mandatos de Wellington Dias. Mesmo nos Estados nos quais a renovação política não recebeu, de maneira cabal, o marco batismal de uma vitória eleitoral, as novas lideranças logram, via de regra democrática, emparedar o jogo político, como no caso do Maranhão, através da figura de Flávio Dino, que disputou palmo a palmo o governo com Roseana Sarney. Rio Grande do Norte e Alagoas, por seu turno, não são as exceções que confirmam a regra, compartilham do processo com vicissitudes e determinações semelhantes, contudo, ainda não tiveram um rosto ou o marco de uma eleição simbólica de governo estadual.


A lição deixada pelo voto nordestino recente é clara: pode-se sair de baixo, tanto da origem social como dos pequenos partidos do sistema político, fazer carreira e chegar, caso seja bafejado pela fortuna (o acaso, no vocabulário maquiavelino), até o cargo de governador.


Advirto que não devemos fantasiar este processo. Precisamos analisá-lo em evolução e perspectiva histórica. Caso seja lançado o facho de luz retrospectivo do tempo, divisamos que as lutas políticas e sociais no Nordeste sempre foram radicais, e não é de hoje, como atestam os movimentos contestatórios do século XIX, desde o processo de independência (Confederação do Equador, 1824), passando pela Regência, indo da Balaiada (1833-1841) no Maranhão e a Revolução Praieira em Pernambuco/Paraíba (1848).

Contudo, passado o período do “vapor fervente das revoluções”, como um renitente padrão, sobrevém, após a decapitação do movimento insurreto, a conciliação e a cooptação de lideranças. Passada a turbulência regencial, chegou o tempo da conciliação dada pela fórmula da maioridade de Pedro II. O filósofo político italiano Antonio Gramsci cunhou uma feliz expressão-síntese para entender a dinâmica deste movimento contraditório de revolução-conciliação: transformismo. Pois bem, o nordeste sempre se notabilizou por ser a terra dos transformismos. Os exemplos do transformismo nordestino são tão fartos que vou me eximir de citar casos pessoais.


Os que resistiram ao canto de sereia do poder instituído foram isolados da vida pública. Cito brevemente o interessante caso das desventuras liberais de Joaquim Nabuco. Filho de um grande político do Império, oriundo da elite pernambucana, Nabuco de Araújo, Joaquim Nabuco poderia ter se acomodado a uma carreira política tradicional. Eleito três vezes. Nabuco perdeu sua eleição mais bonita. Pela primeira vez foi eleito no diapasão da tradição. Em seguida, porém, abraçou a causa da abolição. Mas não se tratava de uma abolição desacompanhada: junto com a liberação dos escravos, Nabuco pregava todo um conjunto de reformas na vida rural e na educação, visando dotar o país de uma nova cidadania ativa. Munido pela mensagem, mobilizou de esperança do povo em discursos memoráveis nas sacadas das ruas do centro de Recife. Pobre nordeste, pobre Brasil. Resultado: como apelou diretamente com sua mensagem renovadora ao povo de Recife, e o sistema eleitoral censitário restritivo, amargou o dissabor de perder a tribuna parlamentar do Primeiro Distrito da Corte em 31 de outubro de 1831. O sistema era vedado à mobilização e à mensagem: a rua não cabia na política institucionalizada.


O que realmente mudou entre esta remota historinha exemplar e os dias de hoje? Além da alteração formal do sistema de voto em distrital para o proporcional, alteraram-se as estruturas sociais do Nordeste. Quem coopta e produz transformismo são as estruturas, como elas estão falecendo, o poder de atração vai minguando.

O poder político vem se transformando de fato no nordeste desde 1958, data de criação da SUDENE, nossa verdadeira Revolução de Trinta, ocorrida com vinte e oito anos de atraso. Antes de 1958, o nordeste simplesmente compunha o bloco histórico de trinta como um ator subordinado da aliança política. Trata-se de manter com migalhas o apoio da oligarquia política regional enquanto a revolução burguesa produzia a voragem modernizadora e industrializante principalmente em São Paulo.


A navegação venturosa do Nordeste somente começou quando se produziu uma inusitada comunhão de objetivos entre o projeto racionalista e desenvolvimentista da burocracia intelectualizada do Estado, da qual a figura integra de Celso Furtado é o grande emblema, e as massas depauperadas e humilhadas da região, gerando a rica dinâmica social (os marxistas dirão: a luta de classes) que foi, enfim e infelizmente, rompida com o golpe de 1964. Nos termos de Francisco de Oliveira, em seu belo texto memorialístico, Noiva da revolução, éramos “o elo mais fraco da cadeia do colapso do populismo, cujo epicentro (...) encontrava-se em São Paulo”.


Não tenho medo em afirmar que caso não tivesse havido a pedra no caminho do golpe de Estado, o nordeste teria tido uma floração política renovadora bem antes do alvorecer do terceiro milênio.


No entanto, paradoxalmente, ao menos para a esquerda derrotada em 1964, que pensava que os militares regrediriam o progresso recente da economia brasileira, depois de instalado o golpe, continuou a haver renovação política e econômica do nordeste, somente que maneira conservadora.


Na primeira parte do presente texto, a guisa de falar em Antonio Carlos Magalhães, prometi abordar uma questão analítica crucial. De qual questão se trata? Temos que compreender toda a série de políticos do Nordeste (ACM, Sarney, Agripino Maia, Marco Maciel, etc.) que emergiram ao agasalho das sombras protetoras do aparato centralizador de 1964, não vestindo o modelito da oligarquia rural tradicional (esta começou a ser derrotada em 30 e foi desidratada a partir de 1958), mas de novos oligarcas. Estes novos oligarcas (hoje beirando à faixa dos 70 e 80 anos) dominavam a política dos Estados com mão de ferro, controlavam desde os meios de comunicação ao aparato judiciário. Ao mesmo tempo em que passaram a desenvolver, entre nós, as estruturas do capitalismo, cerceavam a democracia e o avanço dos direitos de cidadania. São estas as figuras que estão sendo varridas do mapa no processo de renovação política do nordeste.


Escrevi sobre o estado das coisas, mas cabe perguntar para aonde vamos. Os novos governadores, principalmente, devem encarar tarefas de alcance histórico. Como desenvolver a economia e distribuir renda? Como profissionalizar o serviço público? Como, enfim, alterar a cultura política patrimonialista e ativar mecanismos de participação social no aparato do Estado? Não é fácil. Mas, se fosse fácil, tampouco teriam sido eleitos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Amy/Werther (segunda versão)

Jaldes Reis de Meneses

Aconteceu naquela noite:
O coração de Werther retornou
E enlaçou o outro coração crepuscular.

Werther faz questão de retornar
Quando chamado, seja aos céus e à lua,
À paisagem bucólica de um pasto
Campestre alemão ou um pub londrino.

A névoa da madrugada é igual.
Em todo lugar a névoa abraça.
Passam os tempos, passam as horas,
Tudo é igual, Amy se vai, mais uma Amy se foi.

Werther acorda
Do pesadelo de coração fechado –
Pois as horas não transcorrem normais
Quando morremos: as horas despassam
A morte e mais alguma coisa de nada.
Deixa-se o mundo sem carrego.

Flutuamos

Ao ressurgir e abandonar o vinho,
Embora as vinhas continuem
Sem sentido

Florindo:
Não há mais remorso, nem ódio,
Inexistem ciúmes de amor romântico
Em paisagens secas e lunares.
Cantar à morte somente resiste
Ao brilho encantado da luz do dia
Acaso uma voz rouca entoar
O último soul da madrugada
Ao sabor de uma taça de vinho.

Penso que Amy e Werther se foram,
Mas não perderam muito, senão
A tormenta dos filhos crescidos.

Ir cedo tem suas vantagens:
Aos vinte e poucos anos
Se o coração nada mais recebe
A fotografia exala o sabor
De um coração fechado
No qual nada de mais peso
Acresce-se.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Política e Estado

Jaldes Reis de Meneses

Nota inicial: Pretendo de vez em quando (talvez de mês e mês) aproveitar esta janela no WSCOM para dissertar, de maneira simples e com o mínimo de jargão possível, sobre alguns temas, conceitos e autores fundamentais do mundo em que vivemos. Quero escrever simples, mas com fundamento nas melhores idéias e autores. Talvez depois de alguns anos saia desses artigos um livro simples, composto de ensaios livres. Continuarei, é claro, nas demais semanas, a escrever sobre a conjuntura nacional e internacional, e algumas vezes sobre cultura. Como não poderia deixar de ser em meu caso, começo pela relação entre Política e Estado.

O poeta Manuel Bandeira tem um verso que diz assim: não quero mais saber da poesia que não tenha a ver com libertação. Se alguém quiser saber qual o principal valor envolvido na atividade política, o poeta cantou o mote: a liberdade. Por isso, já sabiam os gregos – que foram os inventores do conceito de política, não da política propriamente dita, pois essa existiu desde sempre em todas as sociedades –, a política se trata da mais enriquecedora atividade humana. Pode-se afirmar sem erro que há uma "nobreza" sem título em quem faz política.

Estou falando, nos termos de Gramsci, é claro, da “grande política”, da atividade estudada na filosofia política, que decide os rumos da sociedade, não da “pequena política”, das futricas de bastidores que nada decidem, apenas reiteram. Um dos problemas da política hoje é exatamente este: há “pequena política” em demasia, ao inverso da escassez da “grande política”.

Gostaria de esclarecer polemicamente que sendo o objeto precípuo da política a liberdade, por outro lado, não poder ser mais a felicidade. Talvez, neste caso, o ideal dos jacobinos franceses, que buscaram, no século XVIII, conjugar política e liberdade com felicidade, deva ser arquivado. Saint Just, portanto, estava heroicamente equivocado quando bradou na Convenção francesa de 1792, no auge da revolução que mudou o mundo, que “a felicidade é a boa nova que percorre a Europa”. Pode haver liberdade sem haver felicidade, embora a liberdade seja uma condição da felicidade.

Continuando o jogo de negações, a política nada tem a ver com a paz, ao contrário, pode ser o aviso da guerra, como já afirmava Rousseau quando lembrava que a liberdade deve enterrar sem medo as aspirações de paz quando se trata de enfrentar a tirania.

De onde provém a política, qual o seu mistério? A mais clássica de todas as definições, a de Aristóteles, é insuperável: a política provém da capacidade de falar facultada aos homens. Apenas os homens falam, por isso fazem política, sintetizado na fórmula aristotélica do zoon politikon (animal político). Por isso, política e linguagem são umbilicalmente ligadas. Contudo, tributário da concepção de cosmos e tempo de sua época – cíclico, geocêntrico e harmônico –, Aristóteles pensou através de um esquema organicista da política, no qual as instâncias as instâncias inferiores (a família) já operam como prenúncio necessário, determinístico, das instâncias superiores (o Estado). Dessa maneira, naturaliza-se o Estado.

Nada mais distante da feição de um elemento de natureza do que o Estado. Vale à pena insistir: o Estado é uma criação humana, com data de nascimento e talvez, um dia, de desaparecimento. A eternidade do Estado é simplesmente um mito. O senso comum tanto referencia o Estado que faz questão de grifar a letra inicial da palavra em maiúscula. Por isso, na teoria política, embora distante de veleidades anarquistas, que não aprecio (em termos filosóficos, os anarquistas apenas negam o Estado sem apresentar nenhuma positividade para sucedê-lo), sou adepto dos autores críticos e negativos em relação com o Estado, de Espinosa, a Marx e a Gramsci. Busco não esquecer a lição do velho Nietzsche – outro crítico ferrenho do Estado -, de que ele é “o mais frio e cruel dos monstros”. Aliás, disso já sabia um estatólatra da capacidade de Hobbes – não é à toa que ele homenageou um monstro no título de sua obra de louvação do Estado, justamente o Leviatã.

Ter perdido de vista o horizonte da possibilidade do desaparecimento, um dia, do Estado sem dúvida vem a ser o principal problema da política que se pratica no mundo hoje, inclusive a dos movimentos sociais. Quem fita o horizonte máximo na prática está se aproximando da liberdade, ou seja, fazendo de fato a “grande política”.

De uma maneira ou de outra, por mais críticos que pareçam quase todos hoje fazem a política do Estado. Quais são as exceções? Sempre digo, até mesmo a quem faz política por dentro do aparelho de Estado (uma necessidade histórica, pois o Estado é a instituição fundamental da política na modernidade, pois só ele universaliza – eis mais uma de minhas diferenças com os anarquistas), que é preciso saber que o Estado, longe de ser natural, é uma criação histórica; portanto, pode e deve ser superado.

Para emancipar-se, antes de tudo é preciso ver-se o horizonte da emancipação que se quer. O próximo pequeno ensaio, no mês de outubro, retornará com a questão do poder, explicando a minha segunda diferença com os anarquistas.

Na semana do Cineport, recordo Agostinho da Silva

Jaldes Reis de Meneses

Começa esta semana em João Pessoa, ao que me parece em edição de tamanho menor, o IV Cineport (Festival de Países de Língua Portuguesa). Trata de um dos principais eventos do calendário cultural da cidade, um momento de cosmopolitismo lusitano em nossa província, às vezes desabituada, de tanto olhar para dentro das próprias vísceras, a pensar as coisas do mundo. Precisamos aprender as lições portuguesas, que sempre olharam para fora da Europa, deram as vistas para a África, a América e a Ásia, criando novas misturas e civilizações, dos trópicos à China.

Há uma imagem gasta sobre os portugueses, mas tão verdadeira que virou senso comum: a atração dos portugueses pelo mar oceano, que na literatura acompanha a escrita, de Camões a Fernando Pessoa, até, pode-se dizer mais recentemente, um José Saramago, que na bela novela “Jangada de Pedra” radicalizou a tendência lusitana de buscar o mundo afora. Na novela de Saramago, quem dá adeus ao continente europeu, ao invés de embarcações de partida – velas e navios –, é o próprio território de Portugal inteiro. É toda a parte portuguesa da península ibérica que desembarca para uma aventura incerta no oceano.

Na alegoria de Saramago (este belo construtor de alegorias contemporâneas), de alguma maneira, reconstrói-se involuntariamente o mito platônico de Atlântida (o continente perdido), no sentido de que ambos se perdem, Atlântida literalmente - sucumbe na região abissal do oceano Atlântico –, ao passo que Portugal se perde nos desvãos do contacto étnico com os outros, gerando a promessa, nos termos de Darcy Ribeiro, de uma nova Roma latina e miscigenada. Perde-se para se achar no outro. Assim que deve ser: nas viagens nos perdemos e podemos nos reencontrar através da experiência do novo.

Penso no Cineport e me impressiona como é desconhecida na Paraíba a figura e a obra intelectual de Agostinho da Silva, cuja memória esquecida desejo recordar. É uma pena não se saber, na Paraíba, quem foi Agostinho da Silva, um português genial que fez a aventura do mundo e aportou aqui na década de 1950, professor de Filosofia e História Antiga e Medieval na Universidade da Paraíba (depois UFPB), trazido por José Américo de Almeida. Antes, o professor Agostinho freqüentou os círculos modernistas do Rio de Janeiro e São Paulo – especialmente o poeta mineiro Murilo Mendes –, mas foi na Paraíba que de fato começou a aventura docente. Passou somente dois anos na província, que desgostou dos modos vanguardistas do professor.
Logo estava na Bahia fundando o CEAO (Centro de Estudos Afro-Orientais) da UFBA, estabelecendo, pioneiramente, o intercâmbio cultural entre Brasil e África, explorando o lado não Europeu do Atlântico.

Agostinho da Silva pregava um intercâmbio sincrético e ecumênico com a África, despido de projeto de dominação e colonização, um aprendizado mútuo no quais todos só temos a ganhar em civilidade, ou seja, traduzindo nos termos metafísicos do drama português, dissipar, através da viagem pelo mar oceano, o fogo-fátuo da melancolia sem fim e o espesso nevoeiro da desencantada realidade lusitana em tempos de Salazar, épica ao revés de Camões, versejada em “Mensagem”, o admirável poema do mais importante poeta nascido no século XX, em qualquer latitude, Fernando Pessoa (“Tudo é incerto e derradeiro./ Tudo é disperso, nada é inteiro./ Ó Portugal, hoje és nevoeiro.../ É a hora” – Nevoeiro, Fernando Pessoa, escrito em 1928, época de vigência da “Ditadura Nacional” de 1926).

Um dos principais segredos de Fernando Pessoa ser considerado poeta maior, entre outros, é porque, no fundo, o drama português é universal, o drama da modernidade capitalista e colonial. Pois bem, no sentido da rima de Pessoa, Agostinho buscou realizar como projeto de vida, itinerante no mundo lusófono.

Agostinho da Silva trata-se de uma das figuras ancestrais do tropicalismo. Lê-se em certa passagem de seu livro autobiográfico, “Verdade Tropical”, Caetano Veloso se recordar de um “professor português vindo da Paraíba”, que dava aulas maravilhosas, libertárias, absolutamente originais. Em sala de aula, o professor pontificava sobre a possibilidade de emersão de um “quinto império teocrático do Padre Antonio Vieira”, uma comunidade universal de fraternidade. Essas idéias em futuro próximo serão decisivas para a composição, por Caetano, por exemplo, da canção “Tropicália” – manifesto do Tropicalismo.

Na verdade – e esta é a questão teórica central –, Agostinho da Silva, em tais utopias prototropicalistas, estava postulando uma versão antagônica ao “lusotropicalismo” de Gilberto Freyre. Ou seja, postulando o combate à ideia salazarista – de que infelizmente o mestre pernambucano de Apipucos transformou-se em ideólogo, na segunda fase de sua obra –, de justificar o domínio colonial português (excrescência retardatária em pleno pós guerra) como diferente do inglês, francês ou belga, em virtude de os portugueses se apascentarem aos modos de vida das culturas locais. A cultura justificando a espoliação colonial.

Agostinho da Silva criticava o império colonial português, tanto que emigrou para o Brasil exatamente em virtude das perseguições de Salazar. Ao avesso de Gilberto Freyre – perversor de sua própria obra inicial –, Agostinho da Silva reinterpretava o legado lusitano, buscava nele precisamente idéias de emancipação, e o Império de São Sebastião como o profeta da fraternidade universal. Fraternidade universal, a boa nova da teologia política de Antonia Vieira (ou, ao menos, uma de suas possibilidades interpretativas – a de Agostinho da Silva). A Paraíba e a UFPB precisam saber quem foi Agostinho da Silva.