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Doutrina Trump: Alinhamento aos Estados Unidos ou Interesse Nacional

Lindbergh Farias (Senador PT-RJ) Jaldes Meneses (Prof. História-UFPB)
O mundo e a América Latina em alerta máximo. Trump começou a semana bradando que a Coréia do Norte receberá “o fogo e a fúria” das bombas atômicas americanas “como o mundo jamais viu" e terminou ameaçando a Venezuela de “opção militar” direta, visto que “[a Venezuela é nossa vizinha, e nossas tropas estão por todo o mundo”. Muitos analistas internacionais punham em dúvida até esta semana a existência de uma “doutrina Trump”. Não deve haver mais dúvida. Parafraseando Shakespeare em Hamlet, é "loucura sim, mas tem seu método”.
Nossa geração – homens e mulheres que não viveram na pele a experiência da Segunda Guerra Mundial – começa a viver uma encruzilhada trágica da história. No fundo, adotando a loucura como estética de ridículo político (Hiltler e Mussolini já fizeram uso do mesmo expediente), o presidente americano propõe a saída clássica da guerra no capitalismo como solução da crise do modo de produção. P…

O grande acontecimento da história do Brasil ainda não aconteceu

Jaldes Meneses
Em pleno apogeu dos anos de chumbo, na primeira metade dos anos 70, o grande historiador, comunista convicto e general cassado pela ditadura Nelson Werneck Sodré foi convidado a um evento - de fato, um ato de resistência -, no Centro Acadêmico de História da USP. Lá pelas tantas uma mocinha dirige uma pergunta ao historiador: - General, qual o grande acontecimento da história do Brasil? Do alto de sua sabedoria, Nelson Werneck respondeu algo assim: - o grande acontecimento da história do Brasil ainda não aconteceu. Sem carregar demais as tintas numa filosofia da história, pode-se deduzir da experiência do tempo social que o grande drama brasileiro é ser uma história escassa de acontecimentos verdadeiros, do tipo aqueles pelos os quais o poder da soberania popular institui uma constituição. Seria falso dizer que somos uma sociedade ausente de lutas, resistências e até mesmo de grandes e heróicos movimentos sociais e de massas. No entanto, o nosso estigma é que nos momen…

INVASÃO ZUMBI: ENTRE O CAPITAL FINANCEIRO E O PROTESTO SEM JUIZO

Jaldes Meneses 
Uma melhores frases de Slavoj Zizek - mais um moralista de frases inspiradas que propriamente um teórico sistemático -, recita que o cinema nos permite sonhar o mundo acordado. Se quisermos saber a quantas anda a situação do mundo, uma das redes de frequência é sintonizar as imagens das telas. 
Portanto, em tempos de barbárie, especialmente na ocasião em que um zumbi de tons alaranjados se prepara para tomar posse na Casa Branca, dia 20 de janeiro, faz sentido reeditar a velha metáfora dos Zumbis, já explorada à exaustão no cinema.
Certamente, sempre houve um charme trash nos filmes de zumbi, sintetizado naquela frívola ideia cult (o quê do cult não é frívolo?) que o luxo vem do lixo. Quem melhor agarrou involuntariamente a ideia foi Zé do Caixão (Conffin Joe para o público de festivais de cinema nos Estados Unidos), que expôs com maestria de dar dor nas vísceras, de câmara mão e uma ideia na cabeça, o máximo da bizarria do subdesenvolvimento brasileiro. 
No anos 80, Georg…

Política e Tragédia

A política é uma atividade eminentemente trágica. Em anos de convivência com políticos, aprendi que poucos percebem ou sabem lidar a seu favor com esta grande - talvez a mais importante de todas - questão humana. Na teoria política, a não um punhado seleto de autores, se bem lidos, ajudam na elucidação deste enigma. Há um grande silêncio a respeito. Saber que a política é uma atividade trágica, aliás, vem a ser o mais forte dos argumentos em defesa da alternância de poder. Mas quem quer saber? Entenderam?

Tópicos para 2017

Previsões de 2017: 1) A preço de hoje, a principal aposta da elite dominante é persistir tapando os buracos da pinguela e segurar o andor do caixão do governo Temer, se possível, até 2018. Mas o roteiro pode mudar, até rapidamente, no decurso de 2017. 2) Ainda não se sabe direito o que fazer da candidatura de Lula, embora os instrumentos de criminalização e impedimento estejam postos. Mais que postos, azeitados. A questão é que, contraditoriamente, a candidatura de Lula mantém um índice mínimo de legitimidade do sistema político. Por seu turno, o impedimento eleva à potência máxima a deslegitimação do mesmo sistema político.
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Desistam financistas, rentistas e tucanos: a proposta de eleições indiretas orbita num grande vazio. Não existe do bloco no poder, hoje, uma única liderança com o mínimo de legitimidade de encarar este cálice envenenado. FHC, previdente, já percebeu o vazio.  Ninguém entre os tucanos ou aliados no bloco dominante se credenciou a desempenhar um papel de coesão …

Mais vale o que será

Teses para aprofundamento:
1) Estão se encerrando dois ciclos históricos combinados, o da constituição de 1988, bem como o "ganha-ganha" policlassista do lulismo originário, possibilitado pela lealdade de todas as forças políticas - mesmo as de oposição - ao terreno comum da atual constituição, não por acaso muito conhecida como "cidadã". É preciso nos prepararmos para o florescimento de um novo período histórico, certamente mais radicalizado e de deslealdade à letra do pacto da lei;
2) É importantíssimo defender e entender o legado contraditório dos governos de Lula e Dilma. Contudo, a nova agregação potencial das massas virá mais, de imediato, de um programa de combate concreto às reformas da previdência, trabalhista e do Estado, entre outras do governo Temer, em intrínseca combinação com a defesa intransigente da democracia contra os retrocessos. Mais vale o que será. Caio Prado Jr., em "A revolução Brasileira", defendeu um programa de reivindicações ime…

Em busca do comunismo (1)

Jaldes Meneses
O que é a alienação política? Nada menos do que o fenômeno societário da dilaceração e fragmentação esquizofrênica do indivíduo concreto de carne e osso entre o bourgeois (o indivíduo burguês egoísta da sociedade civil) e o citoyen (o cidadão virtuoso da esfera pública estatal), numa sofística que não é pessoal, mas do próprio Estado político. Como todos os leitores de Marx estão cansados de saber, ele estava querendo fazer a "crítica da política" contemporânea, no sentido de que a política migrou da sociedade civil e se equidistou expropriada e soberba no Estado, e seu aparato de instituições "frias" e burocráticas, distantes do infeliz (espiritualmente) indivíduo mônada habitante da sociedade civil burguesa. Desta maneira, num fenômeno de "ilusão jurídica", a esfera pública burguesa foi desenvolvida baseada na identidade fictícia das pessoas privadas reunidas num público em seus duplos papéis, convergentes mas incongruentes, de proprietári…