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A isca bonapartista de Temer

Jaldes Meneses
Temer esteve hoje à tarde (22/02) na sede do Ministério da Defesa em um reunião do Conselho Militar do ministério. Percebam, não foram os militares que foram ao Planalto, mas Temer que se deslocou aos militares. Passasse o fato em dias corriqueiros seria uma visita banal, mas após e decreto de intervenção federal-militar no Rio de Janeiro, o gesto reveste-se de agudo simbolismo. Por enquanto, apenas simbolismo - não à toa, foi o primeiro presidente brasileiro a visitar aquele ministério. 
Falou-se muita coisa sobre a intervenção, mas um detalhe da maior importância tem passado relativamente incólume. Em termos de teoria política, o gesto de Temer decretando pela primeira vez uma intervenção é clássico. O ato foi tipicamente bonapartista. 
Muita gente que discute a questão do bonapartismo resume o conceito à emersão de um personagem histórico que surge numa situação de equilíbrio catastrófico de classes com a missão de arbitrar o conflito social. Além de o tertius não p…

A jogada bonapartista de Temer. Recriar um bolsonarismo sem Bolsonaro

Jaldes Meneses
Muita retórica balofa e repetição de esquemas prontos de antemão na maioria das análises que tenho lido sobre a intervenção federal-militar de Temer no Rio de Janeiro. Houve um golpe parlamentar no Brasil, suas fases, papel da rede globo, etc. etc. etc. Mas nada substitui a análise concreta da situação concreta.
Um hegelianismo vulgar voltou a fazer escola. Não se deve hiperracionalizar os acontecimentos como se obedecessem a um plano prévio milimetricamente articulado por um comando único. Compor uma narrativa neste molde, além de equivocado, não convence ninguém fora do circuito restrito dos convertidos.
Desconfie da teologia política dos que não se surpreendem com os acontecimentos, como se já os soubesse por vê-los em alguma providencial bola de cristal. No caso da intervenção federal-militar no Rio de Janeiro, embora evidentemente resulte em consequências diretas na montagem em curso de um Estado de Exceção, a decisão de Temer é de ordem conjuntural e situada no plano…

O século dobrou a esquina

Jaldes Meneses
Estão se encerrando dois ciclos históricos combinados, o da constituição de 1988, bem como o "ganha-ganha" policlassista do lulismo originário, possibilitado pela lealdade de todas as forças políticas - mesmo as de oposição - ao terreno comum da atual constituição, não por acaso muito conhecida como "cidadã". É preciso nos prepararmos para o florescimento de um novo período histórico, uma democracia de baixa intensidade, avessa à participação popular. A democracia de baixa intensidade trata-se de uma aposta inviável. Impossível, dado a complexidade intrínseca da sociedade brasileira, bem como a desigualdade social, deixar de haver mais radicalização que conciliação. O século dobrou a esquina. 
A era Lula (a fase dourada dos governos passados de Lula e Dilma, compreenda-se) acabou, mas contraditoriamente o lulismo cresceu muito. Ergeu-se, por artes que ninguém domina ou planeja em laboratório, o maior movimento político de massas da história brasileira.…

A Revolução Russa como Revolução Passiva?

Jaldes Meneses
Seria a Revolução Russa um processo de Revolução Passiva? Entre os principais debates intelectuais na Rússia Soviética na década de 1920 estavam os confrontos de duas teses estratégicas de ritmo de desenvolvimento. Um primeiro grupo, entre os quais se destacava a formulação de Preobrazhenski (1979),  defendia a tese de uma industrialização rápida, na voragem de uma radical “acumulação primitiva do socialismo”. Por seu turno, um segundo grupo, entre os quais se destacava Bukharin (1974), defendia um processo em ritmo mais lento de construção econômica do socialismo, baseado no estímulo à acumulação interna fornecida pela propriedade rural. No final da década a polêmica foi decidida. Stalin, que oscilava entre os dois grupos, a depender a correlação de forças, tomou as rédeas do poder e implantou um regime de bonapartismo (cesarismo) progressivo (Gramsci, 2000 C13: 76-79) que acabou se consolidando como um socialismo de Estado de sociedade civil amorfa e reprodução burocrá…

Ainda a Revolução Russa. A revolução e o Estado

Jaldes Meneses
De te fabula narratur - Horácio
Previsivelmente, a comemoração do centenário da revolução russa reuniu o melhor e o pior, o biscoito fino e o lixo, da análise política e da teoria social. Centenas de debates, seminários, mesas redondas, colóquios, publicações, etc., demonstram que a revolução de outubro (calendário Juliano, sete de novembro, calendário Gregoriano) permanece um acontecimento vivo e interpelando o tempo presente de nossas vidas. Desta maneira, antes de tudo, dado o impacto numérico das comemorações, é importante observar - para além da qualidade e do mérito das contribuições - que fazer o balanço vertical da revolução trata-se de uma matéria histórica presente, sujeita a controvérsia de imediata ressonância política. As posições a respeito da revolução se politizam rapidamente. Mais que passado ou presente, à maneira do estudo de um paraíso perdido do neolítico ou uma civilização pré-colombiana, a revolução russa continua interpelando o futuro.
No começo de …

Gramsci e Lenin

Jaldes Meneses


"Se eu não me queimo Se tu não te queimas  Se nós não nos queimamos  Como as trevas se tornarão claridade” - Nazım Hikmet

A viragem na linha política produzida em 1921/22 no Movimento Comunista Internacional – NEP e frente única,duas respostas objetivas e combinadas a movimentos de transformação da própria realidade russa e européia –, compõe um marco histórico e teórico fundamental na periodização de Gramsci sobre o processo de revolução passivano século XX. O processo contemporâneo de revolução passiva no século XX foi desatado exatamente como um subproduto da Revolução Russa: as respostas (políticas, econômicas, culturais, etc.) do sistema capitalista contra a sociabilidade gerada pelo novo tipo de revolução socialista (os sovietes) – emblematizados no fascismo e no fordismo –, e vice-versa, nos esforços promovidos pelos próprios soviéticos na evolução da Revolução Socialista – a NEP.
Gramsci chegou à URSS em 1922, avesso à política da frente única(defendendo, com nuan…

Gramsci e a Revolução Russa

Gramsci e a Revolução Russa
Jaldes Meneses
Como previsível a comemoração dos 100 anos da revolução russa reuniu o melhor e o pior, o biscoito fino e o lixo, da análise política e da teoria social. Centenas de debates, mesas redondas, colóquios, publicações, etc., demonstra que a revolução permanece um acontecimento vivo e interpelando o tempo presente de nossas vidas. Desta maneira, antes de tudo, dado o impacto numérico das comemorações, é importante observar - para além da qualidade e do mérito das contribuições - que fazer o balanço vertical da revolução trata-se de uma matéria histórica fundamental. Comemorar 1917 em 2017 irremediavelmente condensa as marcas de nosso tempo. A propósito estamos a lembrar do ensaio “Ecos da Marselhesa”, de Eric Hobsbawm, sobre a comemoração dos 200 anos da revolução francesa de 1789. Recorda Hobsbawm que, passado os anos, cada efeméride é comemorada de sua maneira. Ou seja, comemorar a revolução é também dela se aproximar. No alvorecer do século XX a in…