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Dias de fúria e esperança

Lindbergh Farias e Jaldes Meneses
Pesquisa divulgada na Folha de São Paulo na semana passada estampou três resultados acachapantes: a greve dos caminhoneiros tinha o apoio de 87% da população; e 92% consideravam justas as reivindicações. Mais relevante, ainda, foi que também 87% consideravam que as propostas de Temer para solucionar a crise não eram satisfatórias.
De onde veio tanto apoio aos caminhoneiros? Não é preciso consultar as análises de conjuntura feitas pela esquerda. Os analistas mais antenados do mercado financeiro reconhecem as razões profundas de tanto apoio social: a agenda neoliberal tornou-se irremediavelmente impopular no Brasil. E  perceberam o impasse. Ítalo Lombardi, estrategista sênior para mercados emergentes do Crédit Agricole em Nova York, na edição do Valor Econômico de 28/05/2018, declara: "É uma agenda econômica que claramente a população está rechaçando. [...] Consigo ver perdedores claros: o governo e sua agenda econômica”.
A greve dos caminhoneiros foi…

Acordo com o “mercado" e “giro” de “centro-esquerda": mais uma armadilha do “Plano B"

Jaldes Meneses 
O cientista político Mathias Alencastro pensa grande. Em entrevista ao jornalista Luis Nassif, a guisa de contestar alguns argumentos do nosso artigo "Esquerda de Verdade e Armadilhas do “Plano B”, joga na mesa a solução do problema da dificílima conjuntura brasileira. Como se não houvesse relhos, violência e terror político, o caminho das pedras parece relativamente fácil. (https://jornalggn.com.br/noticia/se-esquerda-nao-correr-2º-turno-se-dara-entre-direita-e-extrema-direita-alerta-analista)  
Alencastro afirma peremptoriamente: precisamos nos reaproximar do mercado. Para ele, o PT nos tempos recentes, após o golpe, se afastou muito do mercado. Neste movimento de reaproximação, o partido deve operar um “giro” – o mais urgentemente possível. Deve abandonar a posição de “esquerda” no espectro político, antes que seja tarde e o segundo turno das eleições presidenciais de 2018 seja inevitavelmente disputado entre a “direita” e o “centro-direita”. 
Em qual país vive o …

A isca bonapartista de Temer

Jaldes Meneses
Temer esteve hoje à tarde (22/02) na sede do Ministério da Defesa em um reunião do Conselho Militar do ministério. Percebam, não foram os militares que foram ao Planalto, mas Temer que se deslocou aos militares. Passasse o fato em dias corriqueiros seria uma visita banal, mas após e decreto de intervenção federal-militar no Rio de Janeiro, o gesto reveste-se de agudo simbolismo. Por enquanto, apenas simbolismo - não à toa, foi o primeiro presidente brasileiro a visitar aquele ministério. 
Falou-se muita coisa sobre a intervenção, mas um detalhe da maior importância tem passado relativamente incólume. Em termos de teoria política, o gesto de Temer decretando pela primeira vez uma intervenção é clássico. O ato foi tipicamente bonapartista. 
Muita gente que discute a questão do bonapartismo resume o conceito à emersão de um personagem histórico que surge numa situação de equilíbrio catastrófico de classes com a missão de arbitrar o conflito social. Além de o tertius não p…

A jogada bonapartista de Temer. Recriar um bolsonarismo sem Bolsonaro

Jaldes Meneses
Muita retórica balofa e repetição de esquemas prontos de antemão na maioria das análises que tenho lido sobre a intervenção federal-militar de Temer no Rio de Janeiro. Houve um golpe parlamentar no Brasil, suas fases, papel da rede globo, etc. etc. etc. Mas nada substitui a análise concreta da situação concreta.
Um hegelianismo vulgar voltou a fazer escola. Não se deve hiperracionalizar os acontecimentos como se obedecessem a um plano prévio milimetricamente articulado por um comando único. Compor uma narrativa neste molde, além de equivocado, não convence ninguém fora do circuito restrito dos convertidos.
Desconfie da teologia política dos que não se surpreendem com os acontecimentos, como se já os soubesse por vê-los em alguma providencial bola de cristal. No caso da intervenção federal-militar no Rio de Janeiro, embora evidentemente resulte em consequências diretas na montagem em curso de um Estado de Exceção, a decisão de Temer é de ordem conjuntural e situada no plano…

O século dobrou a esquina

Jaldes Meneses
Estão se encerrando dois ciclos históricos combinados, o da constituição de 1988, bem como o "ganha-ganha" policlassista do lulismo originário, possibilitado pela lealdade de todas as forças políticas - mesmo as de oposição - ao terreno comum da atual constituição, não por acaso muito conhecida como "cidadã". É preciso nos prepararmos para o florescimento de um novo período histórico, uma democracia de baixa intensidade, avessa à participação popular. A democracia de baixa intensidade trata-se de uma aposta inviável. Impossível, dado a complexidade intrínseca da sociedade brasileira, bem como a desigualdade social, deixar de haver mais radicalização que conciliação. O século dobrou a esquina. 
A era Lula (a fase dourada dos governos passados de Lula e Dilma, compreenda-se) acabou, mas contraditoriamente o lulismo cresceu muito. Ergeu-se, por artes que ninguém domina ou planeja em laboratório, o maior movimento político de massas da história brasileira.…

A Revolução Russa como Revolução Passiva?

Jaldes Meneses
Seria a Revolução Russa um processo de Revolução Passiva? Entre os principais debates intelectuais na Rússia Soviética na década de 1920 estavam os confrontos de duas teses estratégicas de ritmo de desenvolvimento. Um primeiro grupo, entre os quais se destacava a formulação de Preobrazhenski (1979),  defendia a tese de uma industrialização rápida, na voragem de uma radical “acumulação primitiva do socialismo”. Por seu turno, um segundo grupo, entre os quais se destacava Bukharin (1974), defendia um processo em ritmo mais lento de construção econômica do socialismo, baseado no estímulo à acumulação interna fornecida pela propriedade rural. No final da década a polêmica foi decidida. Stalin, que oscilava entre os dois grupos, a depender a correlação de forças, tomou as rédeas do poder e implantou um regime de bonapartismo (cesarismo) progressivo (Gramsci, 2000 C13: 76-79) que acabou se consolidando como um socialismo de Estado de sociedade civil amorfa e reprodução burocrá…

Ainda a Revolução Russa. A revolução e o Estado

Jaldes Meneses
De te fabula narratur - Horácio
Previsivelmente, a comemoração do centenário da revolução russa reuniu o melhor e o pior, o biscoito fino e o lixo, da análise política e da teoria social. Centenas de debates, seminários, mesas redondas, colóquios, publicações, etc., demonstram que a revolução de outubro (calendário Juliano, sete de novembro, calendário Gregoriano) permanece um acontecimento vivo e interpelando o tempo presente de nossas vidas. Desta maneira, antes de tudo, dado o impacto numérico das comemorações, é importante observar - para além da qualidade e do mérito das contribuições - que fazer o balanço vertical da revolução trata-se de uma matéria histórica presente, sujeita a controvérsia de imediata ressonância política. As posições a respeito da revolução se politizam rapidamente. Mais que passado ou presente, à maneira do estudo de um paraíso perdido do neolítico ou uma civilização pré-colombiana, a revolução russa continua interpelando o futuro.
No começo de …