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Mostrando postagens de Outubro, 2010

Guerras Cambiais

Jaldes Reis de Meneses

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Logo em seguida o período da guerra sucessória brasileira e o bizarro desfile de padres integristas e pastores pentecostais – meras bolinhas zoológicas de papel –, espetáculo de burrice que começa a ficar enfadonho, uma nova guerra fatal se avizinha: a guerra cambial.

Quem deu a senha, em polêmica intervenção na reunião preparatória do G20 foi o nosso ministro da Fazenda Guido Mantega, dando notícia da incapacidade de arbítrio do fluxo de moeda da parte das principais nações do globo. Foi um tento retórico e tanto: a expressão do Ministro acabou no comunicado preparatório à reunião do G20, que deve ocorrer na Coreia do Sul (Seul), daqui a alguns dias.

Realmente, a situação é crítica: o espectro da crise de 2008, para ser estancado, requer uma desvalorização do dólar, abrindo as portas para uma reanimação das exportações industriais americanas, da União Européia e de países emergentes como o Brasil. Talvez no circuito …

A greve francesa

Jaldes Reis de Meneses

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Há um belo soneto do grande poeta francês Charles Baudelaire que começa assim: “a rua em torno era um frenético alarido” (“A uma passante”).

Paris, Lyon, Marseille, junho, 1789; fevereiro, 1848; maio, 1968; outubro, 2010: tão longe, tão perto. Sem dúvida, o alarido das multidões nas ruas vem a ser, junto com o vinho e os queijos, uma moderna tradição francesa. A explicação estrutural do fenômeno de protestar nas ruas e erguer barricadas deita raízes no próprio processo da revolução francesa de 1789: na radicalização do processo jacobino (1792), os franceses fizeram uma reforma agrária radical, fatiando os antigos feudos em pequenas propriedades camponesas. Dessa maneira, a acumulação primitiva de capitais no campo foi relativamente lenta, tendo em vista o acelerado processo inglês. Ou seja: a transferência de renda e capital do campo para a cidade se deu de modo constante, mas num ritmo equilibrado, tanto que até …

Reflexões na Reta Final de Campanha

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Jaldes Reis de Meneses

Desde o começo do ano, em conversa com amigos e em debates nas minhas aulas de Teoria Política, ao contrário dos que julgavam que as eleições gerais de 2010 seria um espetáculo desinteressante e rotineiro, eu pensava o inverso simétrico: as eleições seriam das mais interessantes e animadas a quem se posta como observador, uma luta renhida, muitas vezes sem quartel, envolvendo, na cena principal, os dois principais grupos em disputa pelo poder político brasileiro, o PT e o PSDB, além de uma extensa série de interesses a tomar partido nos rumos da disputa.

Esses interesses não são apenas os clássicos de uma disputa na sociedade capitalista, cujo cerne é o conflito entre a grande burguesia e os trabalhadores sindicalizados. Ou seja: a contenda entre a renda do capital e os rendimentos do trabalho, mediada pelo Estado. Na Europa (França, Grécia, Espanha, etc.) os efeitos da crise econômica de 2008 puseram na ordem do di…

Marina Silva: Événement e Carisma

Jaldes Reis de Meneses

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Ninguém espera e acontece como milagre. Em política, felizmente (os crédulos diriam “graças a Deus”), existe o conceito extraordinário, mas algo fugidio, do acontecimento (a língua francesa possui a palavra apropriada: Événement). Ou seja, distinto do simples evento, Événement tem o significado da surpresa que ninguém espera e, muitas vezes, tem a força de alterar a série histórica rotineira, enfadonha, de um processo que não se renova. O Événement em letra maiúscula, portanto, sinaliza a mudança de rumos.

Não se trata de uma formulação teórica isenta de conseqüências. Neste sentido, discordo de certa filosofia irracionalista contemporânea – Alain Badiou e Slavoj Zizek – que exageram a potência do Événement e religiosamente acreditam que somente o ato puro, gozoso, inaugural, desprovido de valor ético a priori, pode redimir o homem de sua condição animal e produzir valores. O irracionalismo abre em teoria política a …