Postagens

Mostrando postagens de Março, 2016

O “espírito” de 1964

Jaldes Meneses
Toda história da cultura é também uma história da barbárie. Walter Benjamin

Como abordar o golpe militar de 31 de março (ou primeiro de abril) de 1964, 52 anos passados e neste Brasil em transe assombrado com o retorno truculento dos recalques que pareciam esquecidos na lata de lixo da história? Para tanto, requisita adentrar às camadas profundas dos círculos de um inferno dantesco.
Em sua bela biografia de Napoleão, publicada logo após o fim da Restauração francesa (a sequência de 15 anos de último retorno da dinastia dos Bourbons, na qual ficou evidente a quimera do projeto conservador de retorno do antigo regime), Stendhal faz uma observação decisiva para quem pretenda escrever a história de seu próprio tempo: o escriba vai se meter em exumar os companheiros de geração, as promessas que se dissiparam e os fracassos que ficaram feito cicatrizes, mas principalmente as viragens. O romancista anota que os homens que foram no passado os antigos radicais jacobinos são os m…

A violência dos Mansos

Jaldes Meneses

Na manhã em que escrevo esta coluna lá fora o Brasil está em transe: está em curso, e é preciso que se denuncie sem meias palavras, uma tentativa de golpe de Estado de escancarado conteúdo bonapartista (Sérgio Moro) e midiático (Rede Globo). O objetivo é atear fogo em Roma. O clima de histeria coletivo é tão áspero que são divulgadas conversas privadas, quando todos nós - quem atira a primeira pedra? - relaxamos as cautelas de linguagem, como se fosse crime de Lesa Pátria. Gostaria de escutar as gravações privadas do juiz Sérgio Moro no comando da Lava Jato.
Pouco me importa se circunstancialmente o golpe angarie apoio majoritário, se expressa a voz irracional de ativistas nas ruas ou penas sanguinárias na internet, no fundo da alma movidos pelo ressentimento. Não importa se o golpe tenha o apoio de profissionais liberais de renda elevada, intelectuais liberais (nossos liberais apoiaram todos os golpes da história brasileira, sem exceção) e até pessoas mansas de boa índol…

O inferno somos nós

Jaldes Meneses
“Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homem-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte? (…) Criticar a própria concepção de mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído.” ANTONIO GRAMSCI, Cadernos do Cárcere 11 (1932-1933)
Mistura nova de Babel de afetos de amizade e tribuna política, as redes sociais, exatamente por isso, podem ter, entre mil e uma utilidades, a serventia de funcionar como uma espécie de rico laboratório a quem se dispor a realizar um estudo sério do discurso como crítica à ideologia. Existe atualmente uma corrente da crítica social neomarxista bastante festejada do conceito de ideologia na qual, pelo lado da esquerda acadêmica, o superstar absoluto é o bufão esloveno Slavoj Zizek. No caso específico de Zizek, a salada servida mistura mais Hegel e Lacan e menos Marx stricto s…

Marx: as formas da política

Jaldes Meneses

O antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss, um intelectual de apurado senso de observação, costumava dizer que quando lhe faltava a inspiração de escrever, ele punha-se a ler “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, a obra-prima política e literária de Karl Marx. Trata-se, sem dúvida, de uma obra excepcional, um clássico insuperável de teoria política de extraordinária força imaginativa. No texto, Marx descreve, em pena nervosa no galope dos acontecimentos, o processo político na França em uma época aguda de crise política.
O galope dos acontecimentos é condensado no intervalo entre a revolução de 1848 - quando o povo de Paris derruba, em barricadas nas ruas, o reinado burguês de Luis Felipe, de origem na aristocrática dinastia de Orleans e que se transforma, no exercício do poder de Estado, em um títere da fração financista da burguesia -, até o golpe de Estado de 1851, perpetrado por um aventureiro de pouca intimidade com a Nação, que falava francês com sotaque suíço…