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Mostrando postagens de Agosto, 2007
O pequeno texto que segue trata-se de um singelo verbete de minha autoria escrito para o assim chamado “Vocabulário Gramsciano”, uma obra coletiva organizada por Luiz Sérgio Henriques (um dos tradutores brasileiros dos “Cadernos do Cárcere”, de Antonio Gramsci, um clássico do pensamento político contemporâneo). Sempre é o caso de ressaltar que além de um teórico imprescindível da política, Gramsci foi ao mesmo tempo um grande escritor. Tradução e tradutibilidade As interessantes notações sobre tradução e tradutibilidade em Gramsci (CC, v.1, p. 185-90) estão imersas em uma preocupação de renovar o conceito de ideologia vigente na tradição do chamado marxismo da Terceira Internacional, herdeiro da Segunda Internacional. Esta tradição considerava a ideologia como ciência positiva de classe, turvando assim as relações complexas entre teoria do proletariado e filosofia (concepção de mundo), história e política, povo e intelectuais. O problema da universalidade da ideologia incidia, mais que…
Antonioni/Bergman
Jaldes Reis de Meneses
Entre a assombração o e o alumbramento,
No momento do sétimo selo, chegou-me um homem fardado de negro.
Vinha do gelo. Parecia, sem sê-lo, um espectro hamletiano. Era o meu ego.
Encontrei-me face a face com ele:
Disse-lhe: joguemos xadrez. Pedras brancas ou pedras pretas, mestre?
- Fui um homem jovem atormentado, mas encontro-me pacificado na senectude.
Segui o mundo da aventura com Mônica Vitti e Liv Ullman.
Mônica se foi na derradeira estação e Liv ficou triste.
Já posso ir-me embora. Eu agora sou feliz, eu agora vivo em paz.
Tenho o sabor de morangos silvestres, que antes foram mofados,
Mas os fiz rejuvenescer em preto e branco.
Segui o encantamento do fotograma sem explicação,
Pois o cinema nada explica.
O cinema é para além da agonia,
Um objeto interior ou uma estrela. Uma imagem.
Um olho que nunca olha, apenas expõe.
Fiz certo, meu ego?
Presto contas dos meus fotogramas a você, não presto contas a Deus.
Deus não existe, mas seria condescendente comigo.

Nas pe…
Tenho uma grande afeição por esse pequeno poema de Manuel Bandeira, escrito em 1965, no final da vida, como epígrafe de suas "Poesias Completas":

Estrela da Vida Inteira

Estrela da vida inteira.
Da vida que poderia
Ter sido e não foi. Poesia.
Minha vida verdadeira.
Paradoxos da Bossa Nova



Por que nossa forma musical mais conhecida no exterior nunca chegou a ser popular no Brasil? Não me venham com a conversa fiada que a bossa nova é popular entre nós. Estou pensando a audição da bossa nova como um problema específico brasileiro. Sem medo e sem apelar a estereótipos (adoro polêmicas), as sonoridades da bossa nova lembram as ondas do mar, as paisagens diáfanas de cartão postal da zona sul do Rio de Janeiro ou das praias nordestinas. Prolongando o argumento, a bossa nova constitui a trilha sonora do Brasil que não houve e poderia ter sido, aparecida no momento mesmo em que o país parecia acertar o passo como nação. O processo do Brasil se perdeu, e com ele a bossa nova. Se assim o for, o deleite estético da bossa nova tem seu lugar social numa esfera de reminiscência, de nostalgia pelo que não houve mas poderia ter havido, e esta “esfera de reminiscência”, necessariamente, é uma esfera de elite.
Trabalho informal e subemprego não rimam com bossa nova…
Ruínas, no aniversário da cidade

Jaldes Reis de Meneses


Sanhauá, rio cujas águas jamais me banharam:

Não lhe comemoro as águas, somente a sonoridade.

Varadouro, face deformada de um anjo barroco descendo:

Não lhe vi crescer nem declinar, já lhe encontrei em ruínas.


São as ruínas que comemoro.


Escutei atentamente o novo CD da cantora Eleonora Falcone. Segue um comentário crítico com ênfase no que chamo de dificuldades de socialização da experiência lírica no mundo contemporâneo. A Experência Lírica: Eleonora Falcone Jaldes Reis de Meneses.
Professor do Departamento de História (UFPB).
e-mail: jaldesm@uol.com.br

O segundo disco (agosto, 2007) de Eleonora Falcone acaba de sair do forno, em caprichada edição independente, e deverá ser lançado, em sua cidade natal, João Pessoa, dia 25 de setembro. O primeiro chamava-se Apetite, hoje quase uma raridade, ao passo que o novo exibe na capa um título gigantesco, intrigante, quase como um enigma a ser decifrado – Eu tenho um pedaço de sol que guardo comigo desde menina. A frase do título aparece num dos versos da última, e uma das melhores – difícil escolher uma melhor –, das dez canções do CD (Pedaço de Sol, Eleonora Falcone/Lúcio Lins). Trata-se de uma senha inicial: o disco anterior, cujo título é um único vocábulo, vinha com sonoridad…