O Brasil e a Crise; o PT e o desenvolvimento

Publico a seguir recente entrevista concedida pelo sociólogo Francisco de Oliveira à Agência Carta Maior. Retornarei, o mais breve que puder, aos dois principais e polêmicos assuntos tratados na entrevista, do meu ponto de vista, 1) a concepção marxiana (e schumpeteriana) de que o capitalismo "não se destrói, mas se supera" (recentemente, o poeta Ferreira Gullar afirmou uma coisa parecida, em sua coluna dominical na Folha de S. Paulo, 11/01/09, "o capitalismo não foi inventado por ninguém, surgiu espontaneamente"), como igualmente, 2) as possibilidades de re-editar no Brasil de 2010 uma coligação política desenvolvimentista nucleada por Dilma Rousseff, os fundos de pensão, o PT e outros partidos.

Sem priorizar, no momento em que posto, o debate sobre o conceito de capitalismo, que tem a idade do próprio modo de produção e das chamadas ciências sociais - dois parceiros de jornada histórica moderna -, adianto, por impaciência, algumas linhas. A própria expressão - capitalismo -, antes de pacífica no senso comum, contém no âmago uma crucial polêmica intelectual: afinal, o sistema é histórico ou o fim da história? A polêmica percorre, por exemplo, as digressões de Saint-Simon - repetidades por Auguste Comte e Stuart Mill filho - sobre a emersão de uma "sociedade industrial", com base na fábrica e na evolução da ciência; e que depois recebeu a crítica de Marx, nucleada no conceito de modo de produção, que relativizou a importância do determinismo da técnica e o fez anconrar em relações sociais de produção historicamente determinadas (ou seja, o determinismo passou a ser histórico e não simplesmente técnico). De todo modo, reitero, vou me prender ao assunto de uma nova eventual nova coligação do desenvolvimentismo brasileiro. Mas devo voltar à fortuna crítica do debate atualíssimo do conceito de capitalismo, que já cindiu opiniões na Itália fascista entre Antonio Gramsci e Aquile Loria, e durante o new deal, entre Schumpeter e seus colegas neoliberais. A sequência é longa.



Produzir qualquer viragem histórica no bloco no poder do capitalismo brasileiro trata-se de uma operação de alta voltagem. Tome-se o exemplo crucial dos fundos de pensão: eles estão habituados, via-de-regra, a investir na dívida pública, assim como antes, no governo de Fernando Henrique foram a reserva de capital disponível na privatização das antigas estatais (Vale do Rio Doce, sistema de telefonia, principalmente). Sem contar o fator adicional de que produzir um redirecionamento desses investimentos requer novos arranjos de acordo político, permeando os costumes e os mecanismos de gestão empresarial dos fundos. É fato que os fundos de pensão brasileiros, embora tenham arcado com alguns prejuízos em investimentos recentes, têm uma situação ainda relativamente tranquila, diferente dos fundos de investimento internacionais, pricipalmente os norte-americanos, em virtude da diferença entre a legislação deles e a nossa, que ainda dificulta investimentos investimentos em derivativos fora do território nacional. Caso Lula houvesse promovido a esta mudança, eles estariam amargando enormes prejuízos (não confundir com os investimentos da empresas na qual os fundos participam com capital).

Vê-se, por aí, que a moldagem política de um novo desenvolvimentismo (de um novo produtivismo do qual sairiam "cinco embraers" por ano, nas palavras do sociólogo) é um protagonismo complexo. No governo Sarney, quando o Plano Cruzado começou a patinar, foi tentando o esboço de algo parecido, tendo como base investimentos diretos de fundos estatais, ao largo das carteiras de financiamento dos bancos internacionais. É claro, o Brasil tem nos dias de hoje uma solvência financeira ausente no período do Cruzado. Sem dúvida, o governo Lula possui uma margem de manobra como nenhum outro na história recente da República. Neste sentido, o PAC, involutariamente, pode funcionar como um campo de testes. É por demais sabido que, por hipótese estivessem de fora do PAC os investimentos das estatais e do orçamento público, o módico programa de desenvolvimento de Lula seria pouco mais que uma quimera, devido ao relativamente baixo nível de investimentos do setor privado em grandes obras, principalmente de infra-estrutura.

O problema que se coloca no debate sobre a nóvel coligação política, mais até que a maré montante alternativa de desenvolvimento - as brechas internacionais da crise do capitalismo - é do da democracia. Por isso, necessariamente, a articulação de qualquer nova (ou mais uma) coligação desenvolvimentista tem de vir de baixo. Senão, cairemos nas garras de um capitalismo de Estado, algo do tipo do "capitalismo burocrático" de que nos dava conta Caio Prado Jr. em "A revolução brasileira" (1966). Uma provocação para fazer pensar: o protagonismo atual dos fundos de pensão no capitalismo brasileiro pode constituir, ora essa, argumento analítico da tese do capitalismo burocrático.

Nem todo capitalismo é liberal nem democrático, e talvez uma das grandes novidades do novo século XXI seja a lenta, mas definitiva, mudança de guarda do sistema, do avariado centro histórico hegemonizado pelos Estados Unidos (ele mesmo uma pátria de liberalismo decadente, que o diga os arbítrios cometidos na base de Guantánano e o culturalismo travestido de liberal da teoria do "choque de civilizações") para países de outra matriz político-cultural, como a China, a Rússia, a Índia, e quem sabe o Brasil.

Sobretudo, depois de feito o trabalho de alinhavo de todos os indícios, pode-se conjecturar que o conteúdo da crise é também (e principalmente) americano, sem deixar-se seduzir pela opinião catástrófica do inevitável déblaquê do país e sem invalidar as categorias de economia política mobilizadas no diagnóstico de Chico de Oliveira. Conforme o sociólogo, o sentido compreensível dos recentes acontecimentos econômicos estão na clássica crise realização da mercadoria, tendo em vista os baixos níveis de renda e os altos níveis de produtividade da nova fronteira do trabalho incorporada às relações capitalistas, num autêntico processo de extração de mais-valia relativa, visto que os custos do trabalho na nova fronteira prescindem de proteção social. Conquanto mais-valia relativa, típica do capitalismo industrial, na retaguarda da nova fronteira do trabalho expropriado persiste a tragédia da acumulação primitiva (o tipo de capital gerado por relações não capitalistas que vai dar suporte e/ou origem ao capitalismo industrial).

Recordo, neste interregno sobre o conceito de acumulação primitiva, a lição de Ernest Mandel (Capitalismo Tardio), nos ídos de 1974: vale lembrar que jamais a acumulação primitiva foi um passado remoto, cujas cicatrizes devem ser esquecidas, em todo o conjunto da história do modo de produção capitalista, sempre se atualiza como presente estrutural, como fonte de superlucros. Dessa maneira, a alta tecnologia de produção atualizou, repôs em um novo patamar de intensidade, em vez de dirimir, à superexploração do trabalho (tanto o manual como intelectual, "material" como "imaterial"); só que, em muitas circunstâncias contemporâneas, em vez de ser simplesmente sugado pela exploração imperialista, o excedente da riqueza social do trabalho vem sendo reinvestido internamente.

Ou seja; alguém pode negar soberania ao Estado Chinês e comando de decisão estratégica, por exemplo, ao PCC ou mesmo Putin? No caso chinês, os frutos dos processos da acumulação primitiva são de decisão eminentemente nacional – o próprio consórcio com o grande capital capitalista foi mentado pelos mandarins. Distantes das idéias de lenta acumulação e distribuição do excedente camponês, cujo patrono na ex-URSS foi Bukharin (bem entendido o Bukharin da NEP, autocrítico crítico do voluntarismo do "comunismo de guerra"), os chineses viraram pelo avesso em seu benefício e do desenvolvimento das forças produtivas os velhos esquemas de "acumulação primitiva do socialismo" - fundamentalmente, esquemas de indústrialização rápida e integração do trabalho camponês às relações fabris -, vindo a lume no debate soviético da década de vinte do século que passou, advindo das penas contraditórias de Trotsky e Preobrazenky, diligentemente aproveitadas por Stálin no primeiro plano qüinqüenal soviético (1930).

Assim como Tom Jobim no "Samba do Avião", pondo os olhos de retina cansada na beleza da baía da Guanabara, aterrizemos. De todos esses países candidatos ao comando do sistema, o Brasil tem uma tradição política e cultural "ocidental" (no sentido de Gramsci) original tanto para o bem como o mal, repleta de hibidrismos e sincretismos (a tal nova Roma de Darcy Ribeiro, ninguém sabe se a tirania dos doze césares ou o civismo republicano, a miscigenação de Gilberto Freyre ou o saudosismo oligárquico desse mesmo fascinante personagem contraditório), a meio de caminho entre os EUA e os novos candidatos ao centro do sistema: tanto temos instituições liberais como também penamos sob o manto de velhos e novos patrimonialismos de Estado, de novas e velhas estruturas de poder sem controle democrático.

Desenvolvimentismo, talvez; porém, nunca mais reiterando a ingenuidade dos bem-intencionados - caudas de processos de revolução passiva (Gramsci) -, o qual, como diz o ditado popular, o inferno está cheio. (Jaldes Reis de Meneses).


ENTREVISTA: CHICO DE OLIVEIRA

"Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização".
Em entrevista à Carta Maior, Chico de Oliveira analisa o que considera ser a primeira grande crise da globalização capitalista. "Estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século", afirma. O sociólogo torce para que o PT tenha coragem e capacidade para ajudar o país a deflagrar um ciclo inédito de investimento pesado na economia. "Algo como criar cinco Embraer's por ano", exemplifica.

Redação - Carta MaiorData: 06/01/2009

Dona Joventina preconizava para o filho Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira uma carreira venturosa no sacerdócio. Chico, porém, era apenas um em uma prole de onze; isso deve ter facilitado a desobediência ao roteiro materno. O desvio do percurso o levaria ao engajamento profano que começou com a adesão ao Partido Socialista, aos 20 anos de idade; mas nem por isso a rota gauche o afastou da leitura dos evangelhos. É tomando emprestado a palavra dos profetas que o sociólogo nascido em 7 de novembro de 1933, em Recife, companheiro de Celso Furtado no início da Sudene, fundador do PT e do PSOL, hoje um analista mordaz de ambos com reflexões que incomodam mas não são ignoradas, resume as esperanças –“talvez fosse melhor dizer a torcida”, retifica— em relação ao papel que a esquerda brasileira, especificamente o PT, poderá jogar diante do que classifica como a “primeira grande crise da globalização capitalista”.

“Aproveitai as riquezas da iniqüidade, aproveitai”, acentua o sociólogo, doutor honoris causa pela USP e pela UFRJ.

Chico adiciona à evocação de São Paulo um sentido de engajamento que resume a brecha diante da qual, à moda gramsciana - cético na razão, otimista na ação, torce por um aggiornamento do projeto petista para a sociedade brasileira.

“Naturalmente, todas as outras crises foram globais devido ao peso da centralidade capitalista no processo, mas essa”, observa com entusiasmo intelectual na voz, “é a primeira crise da globalização do capital; uma crise de realização do valor que tem na derrocada financeira sua epiderme mais visível, mas não a essencial”. O cerne do colapso sistêmico decorreria, no seu entender, da fantástica ampliação da fronteira da mais-valia nos últimos 20 anos. “Oitocentos milhões de pares de braços foram incorporados ao mercado de trabalho mundial com o avanço econômico da China e da Índia”, dimensiona. A riqueza produzida por esse perímetro dilatado da exploração capitalista –“que alia salários miseráveis à tecnologia de ponta”-- agregaria ao sistema “uma usina de extração de mais-valia relativa de proporções inauditas”. Um fluxo incapaz de se realizar nos mercados de origem, “onde é muito baixo o custo de reprodução da mão-de-obra”.

O sociólogo extrai daí a convicção de que se trata de uma crise do modo de produção no apogeu da globalização capitalista. Não apenas uma derrapada na gestão financeira do sistema, como acreditariam analistas da própria esquerda. Se a potencialização da mais-valia gerou sobras de capital na periferia para sustentar o déficit norte-americano –a China tem US$ 1,1 trilhão investido em títulos do Tesouro - e barateou o consumo no coração do império, numa endogamia até certo ponto vitoriosa, por outro lado não elevou os salários de ricos, nem de pobres. Ao contrário, depauperou o mundo do trabalho urbi e orbe. “A quebradeira imobiliária é um sintoma dessa contradição clássica, amplificada, entre a globalização do valor e a impossibilidade de realizá-lo na mesma escala porque não há poder aquisitivo equivalente, nem na periferia nem no núcleo do sistema”, reafirma. Chico pede calma ao entusiasmo afoito; não, ele não antevê um horizonte de derrocada final do capitalismo –“não se destrói o capitalismo, o capitalismo se supera”, reporta a Marx.

Mas os dias que correm sinalizariam no seu entender uma inegável e brutal reacomodação de forças em escala planetária; aquilo que, insiste, será periodizado no futuro como a primeira grande crise da globalização capitalista. É aí que enxerga um hiato no hegemon norte-americano. A trinca descortina também uma fresta de esperança política —“torcida”, como ele prefere-- em seu ceticismo intelectual.

É através dela que Chico contempla a oportunidade crucial para o país, para a esquerda e para o PT –“aproveitai as riquezas da iniqüidade, aproveitai ...”A urgência norte-americana em lamber as próprias feridas – “disso será feito em boa parte o governo Obama”— inaugura uma janela obrigatória de rediscussão do desenvolvimento brasileiro. É valioso lembrar que o raciocínio parte do autor de um texto clássico da radiografia analítica do desenvolvimento nacional. É de 1975 seu famoso ensaio “Economia brasileira: crítica da razão dualista”. Com ele, e com o golpe de 64 fechou-se o ciclo da crença na existência de dois brasis, um capitalista, outro atrasado, dualidade que legitimaria sonhos reformistas desastrosos ancorados na suposta existência e disposição modernizante de uma burguesia nacional “aliada”.

O hiato de reacomodação capitalista que se abre agora, ao contrário, reservaria à esquerda, no seu entendimento, uma paradoxal possibilidade de repetir a história modernizante , mas não como farsa –“o que seria uma tragédia”-- e sim como ousadia e criatividade condensadas em um projeto democrático popular. “Trata-se de recriar um 1930 do século XXI”. A alegoria serve apenas para resumir o torque que se cobra das forças dispostas a superar a crise como requisito obrigatório para derrotar a coalização conservadora liderada pelo PSDB em 2010. “Na grande crise capitalista de 1930 tivemos uma reordenação do desenvolvimento brasileiro enfiada goela abaixo da plutocracia paulista”, lembra Chico de Oliveira para dar o crédito à visão de estadista de Getúlio Vargas. “Aquele foi um projeto arquiteto por cima; desta vez trata-se de fazer uma reordenação tão profunda,ou maior; mas induzida por baixo, pelas forças sociais da base da sociedade brasileira em nosso tempo”.O PT, no seu entender, seria o operador desse aggiornamento histórico do desenvolvimento. “É quem dispõe de massa e de liderança, enquanto os demais agrupamentos socialistas constituiriam a ponta de lança instigadora do processo”. Em defesa provocativa dessa tese, o sociólogo exemplifica cobrando a metamorfose daquilo que já caracterizou, no calor do debate político, como “uma nova classe”: “O PT tem a força sindical; a estrutura sindical tem todos os fundos de pensão sob seu controle”, cutuca. A chance de emancipação do país na atual crise seria uma inusitada demonstração de competência e ousadia política da esquerda na canalização de fundos públicos para deflagrar um ciclo inédito de investimento pesado na economia. “Falo em se criar algo como cinco EMBRAERs por ano; acelerar o crescimento e dar um novo rumo à economia e à sociedade”, entusiasma-se no seu raciocínio. “Se um estancieiro gaúcho fez isso na crise de 1930 porque uma Dilma, que honestamente só conheço através da má vontade explícita da mídia; ou, quem sabe, um Gabrielli (presidente da Petrobrás), não poderiam ser instrumentalizados para fazê-lo na crise atual?”. A pergunta recebe da mesma voz uma ponderação pausada: “Devemos tratar essa possibilidade com uma discussão ampla e aberta; não oficialista, tampouco sectária, menos ainda cravejada de acusações entre petistas e não petistas. O que está em jogo é uma reacomodação brutal de forças; se ela devolver o poder aos tucanos aí sim estaremos fritos: eles ficarão aí mais dez anos”.

Leia a seguir trechos da entrevista de Francisco de Oliveira à Carta Maior:

Carta Maior - A crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja, devolve à esquerda o sujeito histórico que ele acreditava ter se esfarelado na história?
Chico de Oliveira - Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira; tampouco acho que a sua origem esteja nos mercados financeiros centrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização do capital. Todas as outras também foram crises globais, claro, devido à centralidade do capitalismo norte-americano. Mas essa crise não floresce exatamente num ponto geográfico; à rigor, se formos localizá-la seria na incorporação da mais-valia gerada na China e na Índia nos últimos vinte anos; novidade esta que influenciou o conjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso; uma crise de realização do valor. O sintoma financeiro é sua manifestação mais evidente, mas não a sua essência.

CM - A essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial?
Chico - A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela; ou seja a mais-valia extraída da incorporação adicional de 800 milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial. Isso produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou a oferta de mão-de-obra oferecida ao capitalismo, dilatando a fronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansão equivalente da capacidade de realizá-la.

CM - Por quê?
Chico - Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde se expande a nova fronteira da mais-valia, casos da China e da Índia, principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliada à tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica de realização do valor, amplificada; uma crise da globalização capitalista. O colapso das hipotecas nos EUA é a manifestação disso. De um lado, a produção na China e na Índia barateou o consumo norte-americano; propiciou também sobras de capital na periferia para financiar o Tesouro dos EUA. A China sozinha tem mais de US$ 1 trilhão aplicado em papéis do governo Bush. De onde saiu esse dinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-valia extraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo de reprodução da mão-de-obra local é baixíssimo.

CM - Mas a crise não marca o esgotamento dessa endogamia China/EUA?
Chico - Ela funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque é proveitosa aos dois lados. Ao mesmo tempo a engrenagem esfarela o mundo do trabalho urbi e orbe; os assalariados norte-americanos simplesmente não têm fonte de renda para o padrão de consumo que ainda desfrutam; estão devolvendo casas e vão morar em garagens coletivas, dentro dos seus carros. Obama teria que elevar brutalmente o poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise. Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que as implicações desse processo devem ser estudadas cuidadosamente; estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século (NR – CM levantou alguns dados que reforçam as preocupações de Chico de Oliveira: a incorporação ao mercado capitalista da produção chinesa, indiana e de países da antiga União Soviética colocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacional direta pela primeira vez na história; trabalhadores ocidentais tornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão de operários adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões de trabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente, responsáveis pela maior parcela da produção global até recentemente, estão sendo desalojados de empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativas no mercado global hoje, metade ganha menos de US$ 3 por dia.A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho de US$ 0,60, contra média de US$ 30/h na Alemanha, US$ 21 nos EUA e cerca de US$ 4,50 no Brasil .Resultado: dados compilados pela Comissão Européia revelam que a parcela de riqueza destinada atualmente aos salários é a mais baixa desde 1960 (o primeiro ano com dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelos detentores do capital financeiro vinha batendo recordes seguidos até o colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo não pára de crescer –desde 2001, cresceu 15% nos EUA e saltou em média 8% a 10% ao ano na China. Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses no total de bens importados pela AL cresceu de 0,7% para 7,8%. No mesmo período, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3% para 6,5%).

CM - O que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crise a partir de sua manifestação financeira não basta ?
Chico - É isso. A contribuição de Chesnais à compreensão da dinâmica capitalista foi importante num outro momento porque os marxistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas a interpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise de realização do valor.

CM - 1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu....Chico— Uma crise de realização do valor circunscrita ao território das economias centrais. Ainda assim exigiu um Roosevelt; e uma Guerra mundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma a gravidade do que temos diante de nós; e o que temos é uma crise da globalização à 29; o ferramental dos anos 30 não dá conta disso.

CM - O receituário keynesiano?Chico - As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podia conter a livre movimentação de capitais; hoje você precisaria de um dinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrer déficits em conta corrente e harmonizar desequilíbrios comerciais etc. O dólar não é isso; o dólar é uma moeda hegemônica, não é o dinheiro único que o instrumenal keynesiano necessitaria para ter eficácia atualmente.CM - Estamos diante de um longo processo de solavancos e limbo sem redenção...Chico - Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças e vai impor mudanças em todo o mundo e no Brasil também. Mas não tenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é o fim da associação China/EUA; de algum modo ela prosseguirá porque é proveitosa aos dois lados. Ademais, o capitalismo não se destrói, ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.

CM – Que espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.

CM - Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?
Chico – Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...

CM - Mas o Brasil de Vargas não existe mais...
Chico - Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.

CM - Haveria espaço para esse salto nas condições do capitalismo do século XXI?
Chico - A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon; não sua derrocada, mas um hiato para lamber as próprias feridas. Isso tomará boa parte do tempo e das energias desse Obama, em relação ao qual, diga-se, não compartilho do otimismo de muita gente de esquerda. Mas o fato é que ele estará ocupado e com uma quantidade apreciável de problemas. Abre-se um espaço, portanto. Talvez até mais que isso: haveria uma potencial complementariedade de interesses se tivéssemos aqui um arranque de investimento público pesado. Isso de certa forma repercutiria positivamente no coração da economia norte-americana. Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon e um espaço de complementariedade para remar na mesma direção, o que poderá favorecer os dois lados a sair do buraco...

CM - Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.

CM - Logo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.

CM – O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?
Chico - Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.

CM - E os recursos para esse ciclo de investimentos pesados?Chico - O PT tem a base sindical e a base sindical tem o controle de todos os fundos de pensão (NR: os fundos de pensão aplicam apenas na dívida pública federal recursos da ordem de R$ 155 bilhões de reais). Então tem recursos para serem remanejados e repactuados com a base trabalhadora; dentro dela o PT desfruta igualmente de massa e representatividade.

CM - Essa é uma agenda para 2010?
Chico - É uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns, nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, com bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 30 e nos anos 50 se fez por cima: destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, nem o sectarismo do Psol e do PSTU.

CM – A candidatura de Dilma Roussef pode oferecer a amarração a esse esforço?
Chico - Honestamente não conheço a ministra Dilma, exceto pelo que leio da má vontade explícita da mídia em relação a ela. Torço para que seja aquilo que amigos petistas dizem que é. Ou então, que seja alguém como o Gabrielli, o presidente da Petrobrás, que certamente também sabe o que está em jogo e as variáveis para sair da crise. Trata-se de articular uma coalizão de forças dentro da qual o PT seria o operador porque é quem tem massa e liderança eleitoral; os grupos à esquerda teriam seu papel de ponta-de–lança. O fundamental é ter um debate com muita abertura e sem preconceitos.

CM - Se a crise se agravar há risco de a oposição ganhar terreno e viabilizar uma vitória de Serra?
Chico - Serra antes de ser um personagem político é um caso psiquiátrico. Qual é o seu projeto afinal? É a obsessão pessoal e doentia pelo poder. Diante de uma crise da proporção que temos pela frente, porém, se você não avançar será soterrado por manifestações mórbidas. A pá de cal viria na forma de uma vitória tucana em 2010; aí sim estaríamos todos fritos. Eles ficariam aí por mais dez anos.

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