As greves da afluência


Jaldes Reis de Meneses

Enquanto nas ruas da Espanha (Madrid), da Grécia (Atenas) ou da Inglaterra (Londres), as massas demonstram a sua insatisfação com a crise econômica do capitalismo internacional, postulo que as greves de profissionais da educação (piso salarial nacional) e segurança (PEC 300), ocorridos recentemente em quase todos os Estados brasileiros, ao contrário, ainda são o que denomino de “greve da afluência”. Está em causa, em lugar de uma atitude defensiva com os efeitos da crise, como na Europa, uma atitude ofensiva dos nossos trabalhadores dos serviços públicos em reivindicar maior participação nos recursos do fundo público, em franco crescimento nos anos passados da “Era Lula”.

A propósito, cabem três comentários adicionais.

Em primeiro lugar, os dois móveis principais do compromisso de classe do governo passado foram os precisamente os pontos críticos da estratificação social, aqueles que o brilhante economista italiano, recém-falecido, Giovanni Arrighi, chama metaforicamente de “andar de cima e andar de baixo”, que foram remunerados (o andar de cima) pelas altas taxas de juros (capital financeiro) e (o andar de baixo) pelos programas de transferência de renda e os aumentos reais do salário mínimo. As camadas médias do sanduíche (em especial os profissionais dos serviços públicos), embora tivessem sido beneficiadas pelas políticas de ampliação do crédito, assim compondo o boom de consumo, rigorosamente foram secundárias na concertaçã o efetuada pelo lulismo.

No raciocínio das lideranças grevistas, vocalizando aspirações difusas, mas de sinal claríssimo, chegou à hora, em tempos de Dilma Rousseff e da posse dos novos governadores, de cobrar, inclusive retroativamente, o papel de protagonista em vez de mero figurante. Parece este cenário de cobrança estava ausente das análises estratégicas dos governadores, mas também da presidente. Talvez ainda embalados pela lua de mel da vitória eleitoral, analisaram o futuro como a reiteração do passado, sem perceber os movimentos que estavam no ar, e que o momento de apogeu do lulismo (finais de 2010), necessariamente passaria por novos desdobramentos.

Contudo, as greves de afluência estão a acontecer em um momento de contágio do ciclo de crescimento brasileiro do ciclo de crise internacional. Pode-se passar rapidamente de um registro a outro. Este seria o pior dos cenários para o lulismo (nos pontos cardiais, embora com idiossincrasias, Dilma é continuidade do governo anterior), muito mais que as denúncias de corrupção e os conflitos na mastodôntica base parlamentar de governo. As peripécias do PR nos transportes ou do PMDB na agricultura e no turismo são café pequeno diante do ameaçador olho da crise. A chave brasileira, mais que na micropolítica dos poderes, encontra-se na macroeconomia.

Feito um jovem proibido por interdito (ou praga) divino (a) de envelhecer, com vocação de eterno narciso, por suas características peculiares de aliança policlassista, de acomodação de múltiplos interesses, alguns até antagônicos, só há uma única saída para o lulismo-dilmismo: o crescimento econômico.

Sem economia em crescimento e sobrevinda a crise, a aliança, social e partidária, se esfarela. Por isso, a prioridade estratégica zero do lulismo-dilmismo será sempre escapar do ciclo da crise, ganhar tempo, “fugir para frente”. Neste sentido, qualquer política ortodoxa, baseada simplesmente na contração dos investimentos públicos (mesmo em despesas de pessoal) seria fatal para o governo federal, mas também, em grau menor, para a atual safra de governadores, partes do grande acordo nacional. A aliança de classes brasileira, bem como os novos parceiros da afluência, não agüentaria a pressão de uma dura recessão.

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