INVASÃO ZUMBI: ENTRE O CAPITAL FINANCEIRO E O PROTESTO SEM JUIZO


Jaldes Meneses 

Uma melhores frases de Slavoj Zizek - mais um moralista de frases inspiradas que propriamente um teórico sistemático -, recita que o cinema nos permite sonhar o mundo acordado. Se quisermos saber a quantas anda a situação do mundo, uma das redes de frequência é sintonizar as imagens das telas. 

Portanto, em tempos de barbárie, especialmente na ocasião em que um zumbi de tons alaranjados se prepara para tomar posse na Casa Branca, dia 20 de janeiro, faz sentido reeditar a velha metáfora dos Zumbis, já explorada à exaustão no cinema.

Certamente, sempre houve um charme trash nos filmes de zumbi, sintetizado naquela frívola ideia cult (o quê do cult não é frívolo?) que o luxo vem do lixo. Quem melhor agarrou involuntariamente a ideia foi Zé do Caixão (Conffin Joe para o público de festivais de cinema nos Estados Unidos), que expôs com maestria de dar dor nas vísceras, de câmara mão e uma ideia na cabeça, o máximo da bizarria do subdesenvolvimento brasileiro. 

No anos 80, George Romero dirigiu uma saga de grandes sucesso de bilheteira ((Despertar dos mortos, A noite dos Mortos Vivos, etc.). Além da diversão juvenil de explorar (e esterilizar) o medo como caricatura, embora indiretamente, pode-se detectar nas comédia-horror de Romero algum ruído dos estertores da guerra fria, que tornou, ao fim e ao cabo, com o papelão protagonizado por Gorbachov, a Era Reagan vitoriosa.

Pois bem, o diretor sul coreano Sang-Ho Yeon, em “Invasão Zumbi" dá um passo à frente no gênero do mestre Romero: a politização passa de indireta a direta, sem mediações nem complicações intelectualizadas. 

A mensagem política do filme de Sang-Ho Yeon é clara: a vigência da ordem social dominada pelo capital financeiro é sufocante, privilegia o individualismo possessivo, em detrimento de valores de solidariedade. Na operação estética de politização do filme de zumbi, pode-se estabelecer um paralelo com alegorias literárias eruditas como A Peste, de Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.    

O filme demonstra que para combater eficazmente a Invasão Zumbi o individualismo possessivo precisa ser arquivado. Não se faz a guerra sem vontade cívica, já ensinavam os gregos e Rousseau. É assim que o protagonista do filme, Seok-woo (interpretado por Gong Yoo) um desses crápulas engomadinhos do mercado financeiro arquiva os modos antigos a assume a capa do herói clássico, que de tudo faz para proteger a filha, que por seu lado humaniza o pai. Mais ainda: se assim não fosse, se não cultuarmos valores mais altruístas, qual o argumento moral para a humanidade sobreviver? 

Mas Invasão Zumbi não desanca apenas o capital financeiro.  O filme também questiona, igualmente, a rebelião sem paradeiro dos zumbis, em evidente analogia com as várias rebeliões de rua que estouraram no mundo recentemente. A politização dos Zumbis aparece no filme pelo cobertura das  networks: os alienígenas são tratados da mesma maneira que são tratados no noticiário corrente da grande os manifestantes de rua. 

Na raiz de tudo, fica pergunta: qual a alternativa? Pode-se responder de dois modos: ou as massas das ruas se organizam com uma ideia de Estado e poder clara, mais além do protesto sem juízo nem direção política, ou existe sempre a possibilidade de uma nova ordem autoritária, de tipo bonapartista ou mesmo totalitário. 



Não se pode esquecer que Invasão Zumbi é um filme sul-coreano, um país formalmente em guerra civil desde 1950, já que, por incrível que pareça, o acordo de Paz entre o Sul e Norte, depois de cessados os combates diretos, jamais foi assinado. O nome do filme no Brasil é Invasão Zumbi, mas o título original, “Última Estação em Busan”, a segunda  cidade do país após a capital Seul, quer dizer muito. (Em inglês, língua sintética, o filme chama-se Train to Busan). 



Busan vem a ser a cidade da Coreia do Sul fronteira da zona desmilitarizada entre as duas Coreias, e a última do filme que ainda não sucumbiu aos zumbis. É para lá que chegam das duas única sobreviventes, a filme do protagonista morto (o capital financeiro, por razões óbvias de justiça moral, não poderia sobreviver) e uma grávida. São os militares que acolhem às sobreviventes. 


Certamente, Invasão Zumbi II, e algum subtítulo como “A Batalha Final” prometeria. Fica a sugestão. O capitão Nascimento da continuidade de Tropa de Elite se converteu aos direitos humanos. Como seria a vida social em Busan, antes de ser travada a "Batalha Final”?

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