Falácias de Pondé


JaldesMeneses 

O reverso do que nós pensamos nos atrai - os que gostam de pensar, é claro -, com ele (o reverso) devemos criar o saudável hábito de estabelecer diálogo. Decifrar a esfinge antes que ela, jibóia, nos engula. Embora discorde, no mais das vezes, costumo prestar atenção à coluna do teólogo e filósofo Luiz Felipe Pondé às segundas feiras no site do jornal Folha de S. Paulo. A escrita conservadora (esta a palavra exata) do autor é cortante a despertar quase sempre o meu fascínio, mesmo que montada sob o chão de uma espécie (irrefletida e involuntária) de fraude histórica e retórica monumental: a idéia de que o pensamento conservador moderno instaurou a dúvida metódica contra as pseudo "certezas" do iluminismo. Sucede que no plano da história ocorreu exatamente o inverso: a dúvida é que é iluminista contra as certezas da tradição conservadora.

O pensamento conservador moderno surge (séculos XVIII-XIX) na polêmica, pela polêmica e para a polêmica. A simples menção à palavra polêmica pode conduzir a um engano que faço questão de tentar dissipar: afirmar pensamento polêmico nada tem a ver com pensamento aberto. Ao contrário, o conservadorismo moderno trata-se de um pensamento, ao mesmo tempo, fechado e polêmico. Em suma, uma família de pensamento de estripe especial, agressivo-defensiva, porque veio ao mundo desprovido de vida autônoma, mas com o objetivo exclusivo de efetuar o bom combate à filosofia política do iluminismo, à maneira de um piolho gruda-se à cabeça ou um carrapato ao couro de um cachorro. 

No Brasil de hoje, Luiz Felipe Pondé continua fiel discípulo dessa escola variegada de pensamento surgido no pleno combate contra a revolução francesa, por exemplo, o catolicismo ultramontano de De Maistre ou os mores patrióticos anglo-saxão de Burke estavam na verdade interessados em remarcar as certezas de suas tradições. Polêmicas das certezas das tradições contra a dúvida cartesiana e moderna, portanto. Assim também se passam as coisas nos artigos de Pondé: polêmicos e dispostos à briga, contudo rodando no circulo vicioso de observar na história do homem e na humanidade, sempre ou quase sempre, a vitória dos piores vícios, acobertados por uma fina camada de razão cínica cuja serventia é dissimular em vez de esclarecer.

Farei o excurso da filosofia do conservadorismo resenhando um artigo antigo do autor – intitulado O quarto (23/02/09) –,a propósito de uma reflexão sobre o filme O leito, baseado no romance homônimo de Bernhard Schlink. O filme conta a história de uma funcionária em um campo de concentração do regime nazista, interpretada por Kate Winslet (Oscar de melhor atriz, 2009), julgada anos mais tarde num tribunal da Alemanha reconstruída -, provoca um deslocamento interessante na perspectiva de análise.

Qual seria o deslocamento? Em vez de manter o foco no principal enredo do filme, a saber, a cadeia de acontecimentos desatados na personalidade de Hanna e a relação de decepção de um ex-jovem apaixonado, Michael Berg (Ralph Fiennes), chocado com a revelação do passado obscuro do primeiro amor, o texto de Pondé opta por especular um assunto lateral, senão ausente, coadjuvante na trama do filme.

A base empírica da especulação é frágil e improvável: uma obscura pesquisa sobre as atitudes e as reações de sentimento dos filhos pequenos de uma pessoa que esconde foragidos judeus no apartamento doméstico. Encontramo-nos sem dúvida numa situação-limite: uma família convive mal na Paris do regime de Vichy, sob ocupação nazista, infestada de delatores. Os sentimentos dos filhos e da esposa com o gesto altruísta do pai vão numa escala crescente do medo a repulsa até, enfim, o desfecho de alívio quando a polícia política invade o apartamento, em busca dos proscritos do regime. Acontecida à prisão do pai e dos judeus escondidos, o pai é apagado, morto e enterrado da memória familiar, que precisa sepultar os antecedentes para continuar a viver a farsa do cotidiano. 

A parábola narrada por Pondé tem a estrutura dramática e narrativa de um micro conto. Neste ínterim, cabe um comentário. Ao escolher a estrutura narrativo-persuasiva de um miniconto, a mim parece que lastrear o argumento em sondagens de comportamento, lida ao acaso pelo autor em uma estação de trem em Paris, absolutamente desnecessário. O miniconto basta em si mesmo; o recurso à imaginação estética, neste caso, deveria ser mais que suficiente ao moralista. 

A imaginação conclui com uma espécie de lição moral macabra: o ato heróico de coragem do pai é espontaneamente sentido pelos petizes, e também pela esposa, como desprezo pela segurança da família. O mundo é terrível, feito um personagem num romance de Fiódor Dostoiéviski ou uma novela de Franz Kafka (duas evidentes predileções literárias do articulista). O altruísmo do pai, protetor de judeus perseguidos, aparenta aos seus, crias e companheira, desprezar o mundo íntimo. Ainda mais: em Pondé, sentimento íntimo de segurança e comportamento de manada são faces da mesma moeda, componentes de igual psicologia de massas. Artes do destino: as senhoras que entregaram os maridos à gestapo, de alguma maneira são as mesmas que, poucos anos depois, nas ruas de Paris, execram as prostitutas que serviram sexualmente aos soldados do exército invasor. Mundo, lúgubre mundo.

Sem pretender negar as evidencias das relações de existência entre segurança íntima e comportamento de manada, as escolhas humanas, em que pese o determinismo das circunstâncias, têm sempre algum grau de horizonte - largo ou estreito - de possibilidade ao exercício da liberdade. O curioso é que autor passa ao largo de uma outra possibilidade de resolução do conflito familiar, tão ou mais plausível do que a primeira hipótese (não me apresentem sondagens de atitude, por favor), qual seja: o pai convence a esposa e os filhos a prestar solidariedade aos judeus foragidos, por que não? O argumento psicológico do artigo de Pondé, colhido de um outro, lido a esmo, na gare de Paris – crianças com menos de 10 anos em geral são impassíveis ao sentimento de solidariedade, no caso limite de por em risco a segurança pessoal –, é simplesmente ridículo, caso a hipótese seja unilateralizada, não passa de tautologia. 

Na família parisiense de Pondé, a força da figura do pai desapareceu, não tem mais papel algum como o Outro no trabalho de sociabilidade do sujeito. A literatura da relação pai e filho é recorrente e nem sempre kafkiana. Recordo, por exemplo, de uma novela memorialista recente - Quase memória, de Carlos Heitor Cony -, no qual a situação, conquanto distante do teste dos limites havido na Paris sob ocupação militar, é de influência dos sonhos utópicos e dos devaneios do pai sobre o filho. Em homenagem a antigos curtidores de televisão, recordo o desenho animado seriado de Hanna&Barbera, Bob pai e bob filho, expressivo da admiração do filhote à parvoíce do pai.

No entanto, logo com começo do artigo, citando uma seqüência do filme, Pondé tangencia a questão central do enredo, mas de pronto dela se afasta para voltar cuidar de sua parábola da família sob o domínio íntimo do medo. Cito a curta passagem do artigo: “Quando o juiz pergunta, “‘Por que você fez aquilo”?’, ela responde com outra pergunta: ‘O que o senhor teria feito no meu lugar?’. Silêncio.” A questão de Hanna diz mais a respeito dos papéis públicos que à vida privada. 

O caso em julgamento é a história de uma ex-operária da Siemens que foi cooptada pelos nazistas e transformada em agente da SS. Dessa maneira, Hanna dirige a pergunta ao magistrado em sua função profissional de juiz e não à inquirição dos demônios privados. Por mais que seja evidente o inextricável laço umbilical entre as duas esferas, conforme procuro demonstrar até o final do artigo, a sensibilidade de Hanna, sua relação com o mundo até a época do julgamento é mais semelhante à de um autômato que a de um ser humano autônomo. Na passagem de autômato a autônomo, na construção de uma nova subjetividade mais enriquecida, reside, por assim dizer, a "mensagem" do filme.

Recorro à trama de um filme menor, sucesso no começo dos anos noventa – Uma cidade sem passado, direção de Michael Verhoeven –, que pode ajudar a elucidar a pergunta de Hanna (a personagem vivida por Kate Winslet). No filme, uma estudante (Sonja, vivida por Lena Stolze) às voltas com uma simples pesquisa para um trabalho escolar de história, na sede do arquivo público de uma pacata e provinciana cidade alemã, descobre o compromisso e a atuação das principais autoridades da cidade com o nazismo. 

Em face da descoberta, surgem, a qualquer um, duas perguntas aterradoras, a depender da posição no conflito: “O que o senhor teria feito no meu lugar?” - os ilustres mandatários da cidade -, ou, caso de Sonja, uma pergunta íntima, "o que eu faria no lugar dos senhores?". Evidentemente, a pergunta de Sonja é liberta do peso das circunstâncias, ao passo que a dos mandatários, retroativa. Mas é possível um outro enfoque: a primeira perguntar remete aos papéis sociais; a segunda compõe a nota de um solilóquio. 

Ninguém sabe ao certo o que fazer isolando as circunstâncias, mas podemos seguir duas pistas, tendo em vista o par contraditório totalitarismo-autonomia do sujeito: 
1) O nazismo foi um regime político de massas totalitário, como somente o século XX soube conceber, ou seja, penetrou no solo e no subsolo da vida social. Por paradoxo, no caso alemão, quando o regime falece (ou seja, o caráter massivo desaparece), os rastros da colaboração foram dissipados por uma espécie de pacto do silêncio entre os colaboradores e o Estado, pois na ausência desse pacto, seria impossível até mesmo o trabalho de reconstrução. Quais médicos, quais engenheiros, quais professores, iriam todos para a câmara de gás, reeditando o projeto de extermínio?, foi a dura e realista pergunta que o ocupante estrangeiro (americano ou soviético) se fez logo que os tranques aliados tomaram o território inimigo. O próprio jogo das punições exemplares dos chefes e principais colaboradores depende desse exercício hipócrita, desse pacto sinistro, como, aliás, verbaliza (cena lembrada por Pondé) um dos estudantes de direito assistentes do julgamento. É impossível entrar e sair da (ir)racionalidade do totalitarismo sem graves seqüelas no funcionamento da psique. 
2) Mesmo nas situações mais aterradoras, por incrível que pareça aos pessimistas, há espaço para o exercício da autonomia individual (a possibilidade de o pai abrir um conflito com a própria família). 

Quem assistir ao filme completo, vai principalmente se deparar com o tortuoso processo de "humanização" da carcereira (e carniceira) Hanna. Ela sabia o que fazia, mas como autômato. O processo de autômato a indivíduo autônomo, central no filme, divide a vida da protagonista em duas partes. 

Na primeira vida, servir ao nazismo só fez fortalecer em Hanna uma natureza de pedra, orgulhosa, inumana, que por artes do enredo se confundia com a sua condição de analfabeta. (No caso, analfabetismo seria como uma cegueira). Era 1958, uma primeira mudança começa a ocorrer quando Hanna começa a travar contacto com a cultura literária universal (Homero, Goethe, Schiller, Tolstói, Tchekhov), através das sessões mistas alcova, leitura e sexo compartilhados com jovem adolescente Michael (ela o chamava simplesmente de "O Garoto"), então com 15 anos. 

Não é à toa que o nome do filme, homônimo ao livro, é O Leitor. Em minha opinião o filme deve ser explicado como a ressonância de um "romance de formação" alemão tardio e irrecuperável. Na tradição do "romance de formação" - Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, como a obra par excellence - o jovem é franqueado a ganhar o mundo em aventura, ao passo que o tempo de aventura e aprendizado de Hanna se perdeu no trabalho sujo de carcereira do nazismo. 

Foi por orgulho e vergonha de sua condição que Hanna deixou-se até mesmo condenar à prisão perpétua, assumindo a autoria de um relatório à SS que ela, analfabeta, não teria meios de escrever de próprio punho. Por orgulho, só e somente só, ela não se declarou analfabeta perante o pleno do tribunal, ávido de cortar cabeças. Depois, à medida que ia se alfabetizando no cárcere, Hanna foi tomando consciência plena da gravidade dos atos criminosos que colaborou. Completa-se a mudança iniciada nas sessões de alcova com "O Garoto", e com ela surge uma Hanna diferente. Antes, nas suas palavras, só "cumpria ordens" - precisamente o mesmo sentido automático e burocrático das palavras do depoimento de Eichmann em Jerusalém, conforme a reportagem de Hannah Arendt sobre os julgamentos dos funcionários do regime nazista. Doravante, em retrospecto, embora continuasse "cumprindo ordens", Hanna, enfim, passou a entender que sua vida foi envolvida nas malhas de uma grande tragédia, na qual, longe de eliminar a culpa, ela foi mais joguete do que autora. 

Para mim, o enigma, a chave, do filme, (mais que na seqüência da pergunta da ré ao juiz comentada por Pondé), encontra-se numa visita de Michael, já adulto, a Hanna, no cárcere, quando ela o fita nos olhos e afirma assim: "que importa o que penso, se as pessoas já morreram?". 


Pode-se esboçar um sorriso e argüir em contrapartida que tal gesto era somente uma idéia apaziguadora. Não penso assim. Hanna morreu ciente da dimensão de sua tragédia: participou de atos tão cruéis que sequer a dor inaudita de um pensamento consciente de seus atos expiaria a responsabilidade pregressa.

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